Archive for the ‘Ouvidos – Memórias’ Category

Eu escrevi aqui que só voltaria a este blog, quando percebesse que existia algum post mais retrospectivo, que me obrigasse a sentir a nostalgia ou pelo menos a noção de caminho percorrido, em vez de o colocar no meu outro blog (aceno), que existe com a vontade de olhar para o caminho a percorrer. Bem sei que é um pouco ilusória esta divisão, tratando-se sempre de mim e das minhas vivências, o caminho é apenas um – o meu. Mas de qualquer forma, acredito existir um ponto antes e um ponto depois e por isso mantenho esta decisão.

O que me trouxe aqui foi a consciência de que passadas duas semanas em Luanda, dei por mim ontem, antes de adormecer, a reviver um pouco dos meus tempos mais recentes, mais precisamente o último ano. É certo que existe desde logo uma analogia entre Maio de 2011 e Maio de 2012, em ambos os momentos estive “fora de casa”, a diferença surge depois ao considerar que em Luanda existe mais aproximação a uma casa do que existia na Guarda o ano passado, e porque em Luanda o tempo aqui vivido será muito mais do que o mês que passei na Guarda em 2011, e os projectos estão em aberto.

Mas este olhar para trás, mexe noutras questões, às quais os meus pensamentos não conseguem fugir. O ano passado o meu horizonte nesta fase do mês era pouco claro, e o meu futuro mais próximo adivinhava-se repleto de nuvens negras (não apenas a nível profissional como a nível pessoal), e esse espectro negativo veio a confirmar-se em muitas coisas, pelo que o olhar para trás me deixa a sensação de ter a capacidade de conseguir encarar, agora melhor, aquele que terá sido o pior ano da minha vida em muitos aspectos, e que vai desde o final de Abril de 2011, até ao final de Abril de 2012. É óbvio que nesse período coisas boas aconteceram e mesmo no último mês desse ciclo já existia uma luz no fundo do túnel, mas para mim esses doze meses foram um ciclo.

Um ciclo de aprendizagem, de exposição, de quebra minha auto-estima e de tristeza. Passei por ele com a ajuda das pessoas a quem mais quero no mundo, amigos e família que me ensinaram em pequenos gestos a crescer e a acreditar.

Agora a milhares de quilómetros de onde esse ano se passou, não é apenas a distância geográfica que sinto, existe também um crescente afastamento das emoções menos boas desse período. Muita coisa está por “fechar”, e muitos sentimentos a desenvolver mas agora consigo olhar para trás e ter alguma esperança no que vem pela frente.

Fez agora um ano (27 de Março), que inaugurei este blog. Na altura apenas sabia que queria partilhar pensamentos e que havia muita coisa relativa ao meu passado que gostava de deixar escrito. Aliei a isso a vontade de escrever algumas coisas que pudesse, no futuro, vir a ser pistas para a minha filha sobre quem é o seu pai e parti para a aventura a que dei o nome de O Corpo Fala, porque sentia que era exactamente isso que eu queria que acontecesse, que o meu corpo falasse, não apenas o cérebro, mas todas as outras partes que por vezes relegamos para segundo plano quando se trata de nos exprimir-mos.

Não fiz qualquer tipo de futurologia sobre o tempo e o caminho que o blog ia levar, mas fui continuando, sempre com prazer a colocar posts, e cheguei quase aos 500 (485 para ser mais preciso). Este ano que passou foi, não adianta tentar esconder, um dos mais difíceis anos da minha vida relativamente a várias questões pessoais e profissionais, não quero outro assim, garanto! Mas ter o blog ajudou-me, vou mesmo mais longe e assumo que O Corpo Fala, cumpriu, entre várias funções, uma função terapêutica. Ajudou-me a reflectir sobre o que ia sentindo, ocupou-me a mente com coisas boas quando em redor tudo parecia desmoronar, obrigou-me a desenvolver uma rotina que me impediu de ser completamente letárgico em vários períodos, e mais ainda, ao escrever sobre certos temas e emoções, fez com que eu as conseguisse “digerir” melhor e com que a minha organização mental por vezes abandonasse o caos em que estava enfiada.

Para além de tudo o que já referi, O Corpo Fala ainda me deu um bónus (bastante grande), que foi ter chegado a outras pessoas, ter conseguido por via dele comunicar com amigos e familiares de uma forma que só a leitura de alguns posts, por parte deles, permitiu. Bem sei que este blog não é um recordista de visitas, mas para mim foi uma verdadeira surpresa a adesão que teve, entre amigos e amigos de amigos, fui recebendo um feedback que me animou. Obrigado a todos os que contribuíram para isso, acho que de certa forma me aproximou de algumas pessoas, o que per si já é um enorme feito.

E a cereja no topo do bolo é que me ajudou a melhorar a minha comunicação escrita, onde muito está ainda por corrigir, mas onde muito já foi conquistado neste ano.

Mas…

Tudo tem o seu tempo, é uma verdade a que este blog não consegue escapar, e agora sinto que chegou a hora de deixar de ter uma visão que foi em muito assente na reflexão sobre o passado e as influências dele na actualidade, fossem essas nostalgias geradoras de posts sobre música, filmes, livros, situações vividas, etc.

Agora apetece-me escrever centrado no presente, olhar para o dia a dia e tentar aí apanhar um vislumbre do que pode estar para vir. Vou sentir à mesma vontade partilhar descobertas de filmes, livros ou discos, de criar pequenas histórias criadas a partir desse futuro imaginado e deste presente vivido. Vou escrever apontamentos à laia de diário e continuar a reflectir sobre o que me rodeia, o que muda é a sensação de nostalgia que percorreu grande parte dos posts deste blog, que será substituída (assim espero e desejo), por uma sensação de tempo presente. Para isso criei um novo blog a que dei o nome ACENO (aceno.wordpress.com), porque acenar é um gesto que me faz sentir feliz, é algo que chuta a indiferença e mantém o contacto e porque pode ser um gesto bonito e gracioso. A partir de hoje o Aceno será a minha principal forma de comunicação via  internet, deixando O Corpo Fala ficar num lugar mais escondido, onde só virei esporádicamente, colocar um post que sofre de nostalgia aguda.

Por isso não este post não é bem um adeus mas um até sempre. O Corpo Fala, mas agora menos, porque quer Acenar mais.

Não podia fechar este post de outra forma, aqui partilho uma das músicas que mais invoca em mim o sentimento nostálgico. “Time Has Told Me” do grande, grande, grande Nick Drake. OBRIGADO

A tolerância é algo que, com o hábito e a rotina, se instala permitindo-nos resistir a algo que ao principio acreditamos ser muito insuportável,mas que com o tempo nos habituamos a suportar. A grande desvantagem da tolerância é que se adequa e possibilita o aumento da dose gradual sem que tenhamos consciência real do ponto a que chegamos. Portanto, o que de inicio poderia parecer bastante terrível pode, com o tempo, tornar-se na nossa zona de conforto.

Assim acontece muitas vezes e em relação a muitas coisas, demais até. Esta versatilidade, nem sempre funciona a nosso favor, ás vezes actua mais como nosso carrasco. Cria uma carapaça que torna tudo indolor e afastado do real, que nos impede de sentir e sofrer verdadeiramente. Pode até ser útil em determinados momentos para resistir ao choque inicial que certas situações provocam em nós, mas rapidamente temos que nos ver livres dessa protecção extra para poder viver o que temos que viver e seguir em frente.

Desabafo assim, por sentir estar sob o efeito dessa couraça que me protege e ao mesmo tempo me impede de sentir. Se gritar e chorar talvez destrua a capa protectora e talvez me aproxime do meus sentimentos.

Uma vez, quando era um jovem de apenas 16 anos, lembro-me de que ajudar o meu pai a cortar relva funcionou como protecção para um choque que queria evitar sentir. Agora, muitos anos depois já descobri mais formas de o fazer, ao mesmo tempo que a minha tolerância aos choques se tornou mais resistente. Pelo menos até ao momento em que o dique desabar.

 

Voltando ao pensamento de Cornelius Castoriadis, eis uma elaboração dele a propósito da predominância masculina na nossa sociedade:

As inovações deste texto (refere-se a “Algumas consequências psicológicas da diferença anatómica entre sexos” de Freud) consistem, primeiramente, no reconhecimento do papel da mulher como primeiro objecto do amor libidinal para as crianças de ambos os sexos e, em segundo lugar, na posição central que é dada à descoberta que elas fazem em como a rapariguinha está “castrada” (sic), do consequente desprezo de que esta pode ser alvo por parte do rapazinho e de si mesma e do irradicável desejo do pénis que a dominará de ora em diante. procurar fazer destes factos psicológicos o fundamento da instituição patriarcal é contudo, ainda neste caso, uma petição de principio. Que aos olhos das crianças o pénis ou o falo (e não, por exemplo, o ventre de uma mulher grávida) se encontre revestido deste valor fundamental, isso já pressupõe a valorização ambiental (social) da masculinidade. O papel essencial do pai na maturação psico-social da criança é ainda menos susceptível de fornecer uma explicação para o patriarcado. A característica decisiva deste é a concentração, numa só pessoa, de quatro papeis: genitor biológico, objecto de desejo da mãe, ao romper o estado fusional que tende a instaurar-se entre esta e a criança (independentemente do seu sexo), modelo de identificação para os rapazes e de objecto sexual valorizado para as raparigas e, finalmente e sobretudo, instância de poder e representante da lei. Pode argumentar-se que esta concentração é “económica” (mas não deveríamos desdenhar os seus custos), mas não se pode dizer que seja inevitável. Em todo o caso, não pode existir nenhuma dúvida sobre a inclinação patriarcal do próprio Freud, expressa no seu juízo de que as mulheres seriam muito menos capazes de sublimar que os homens, no mito do Totem e Tabu, no qual as mães e as irmãs não desempenham qualquer papel ou ainda na maneira como considera a androcracia divina ao pensá-la, sobretudo no monoteísmo como algo de evidente.

Algo construído e orientado por Freud, levou a que a manutenção do status quo patriarcal seja pouco questionada, ora o que Castoriadis propõe é, exactamente, que se coloquem algumas questões sobre essa prevalência masculina na organização da sociedade, algo que, fora da esfera dos estudo feministas, tem sido descurado, inclusive pela própria ciência. Como programa para um futuro onde o equilíbrio (não a igualdade, porque os sexos não são iguais) entre sexos ocorra, é necessário começar por colocar em causa algumas teoria, que mesmo elaboradas “com a melhor boa vontade”, atrasam o caminho em direcção a esse equilíbrio.

Ontem dei por mim a assistir a uma daquelas entrevistas de fim de semana, conduzida pelo mais recente expoente da televisão portuguesa na arte do fingimento emocional que apela à lágrima fácil (não me lembro do nome do entrevistador, mas sei que ele é bastante conhecido). O entrevistado era o David Fonseca e por isso assisti à entrevista.O David foi meu colega de turma na escola de cinema, e fez parte da minha vida durante aqueles 3 anos que por lá passei. Hoje raramente nos vemos, embora quando isso aconteça exista vontade de por a conversa em dia.

Durante a entrevista o David disse que mantinha os pés na terra e que o sucesso não o tinha mudado porque a maioria dos seus amigos não gostava dos Silence 4. Fiquei a pensar nisso depois da entrevista terminar, e dei por mim a concordar parcialmente com ele. É verdade que não morro de amores pela música que os Silence 4, ou mesmo o David a solo, produziram, mas não sou capaz de dizer que não gosto. É uma ligação afectiva às suas criações que me impede de o fazer, é certo, mas é mais do que isso. Do que conheci do David, os seus gostos musicais, a sua paixão pela fotografia e muitas outras coisas mais que me levam a saber do potencial encerrado dentro dele. Digo encerrado porque acho que ainda não foi exposto, mas sei que o será.

Na altura em que o David “abrir o seu livro” todos iremos perceber que está ali. Não parou de fazer as suas aproximações, ora mais contido, ora mais liberto, com mais ou menos produção, umas vezes mais vestido de adereços outras mais despido, mas sempre em busca do que será, na essência, a música dele.

Presunção minha em querer saber qual é a verdadeira música de David Fonseca, pode ser, até aceito! Mas é uma crença pessoal que mantenho desde a primeira vez que o vi a tocar ao vivo, em 1997. Existe mais David do que este que nos foi mostrado até agora, existe um David que pode tocar mais fundo nas nossas emoções, acredito nisso de uma forma que nem o próprio será capaz de me contrariar.

Estou a mentir menos. Consegui viver grande parte da minha vida com o armário cheio de esqueletos criados por mim, e pela minha dificuldade em ser mais “verdadeiro”, a desculpa é que tinha medo da verdade. Desde 2005 (sim. sei a data!), que  a atitude perante a vida, no que a isso diz respeito, mudou. Os esqueletos foram expostos, e mesmo não desaparecendo (alguns irão permanecer para sempre), passei a ter com eles uma relação mais feliz, menos assustadora. Não foi o assumir de uma homossexualidade (podia ser, mas não é o caso), não foi o contacto directo com a morte (ainda não passei, eu próprio, por aí), nem sequer foi uma mudança radical na vida quotidiana. Mas foi experiência importante o suficiente para me deixar descobrir que já não necessitava de mentir ou ocultar. Claro que acredito num dos slogans do Dr. House – “Everybody lies”, e cálculo que até a Madre Teresa tenha mentido. Mas a minha relação com a mentira mudou, deixou de ser tão relevante, embora admita que já menti depois de 2005, e de certeza que vou mentir no futuro.

Depois veio a paternidade o que só reforçou esse novo estado de espírito. E com ele a descoberta de que é muito mais fácil viver sem o peso de uma mentira. Poder ir à luta sem receios de que as falhas que ocultava pudessem ser desmascaradas. Não significa que me estou nas tintas para elas, apenas sinto que já estão expostas que já as assumo e por isso já me fazem muito menos mossa. Eu que até me considero um bom rapaz (a sério que considero!), fui capaz de mentir, enganar, roubar (em lojas, se é que isso faz diferença), experimentar coisas que para além de ilegais eram arriscadas, experimentar outras que não sendo ilegais não deixaram de ser enormes riscos, e viver como se tudo isso fizesse parte de um percurso normal.

Agora, tenho um bom depósito de explicações mais ou menos complicadas para fornecer à minha filha sempre que ela as pedir e eu sentir que ela as deve receber. Mas tenho também uma consciência (é verdade, quem diria!), de que sou melhor do que já fui. Não quero aqui deixar uma imagem de renascido, porque seria mentira, basicamente sou a mesma pessoa que sempre fui, continuo a gostar de coisas que gostava em 1980, 1990 ou 2000, continua a saber bem fazer determinados programas, e ainda mantenho o enorme gosto de estar com os meus amigos (que conseguiram aguentar o bom rapaz durante muitos anos, mesmo reconhecendo-lhe as idiossincrasias). Mas algo mudou e eu sei que essa mudança me fez bem.

Não faço apologia da verdade doa a quem doer, porque essa história da dor é sempre mais fácil de infligir aos outros do que nós acreditamos, por isso tenho algumas cautelas. Até porque também acredito que a frontalidade é muitas vezes uma boa desculpa para ocultar traços sádicos. Aí, nesse campo ainda mantenho algumas dificuldades, reconheço que se deve ser honesto, mas retiro alguma credibilidade à frontalidade nua e crua. É provavelmente um mecanismo de defesa (protecção mesmo) que ainda retenho. Talvez com o tempo possa desenvolver outro tipo de atitude, mas para já continuo a ter pouca afeição por pessoas que usam como lema pessoal a frase – “Eu sou muito frontal”. Principalmente aqueles que despejam essa informação sem que ninguém nem nada no contexto a exigisse. A imagem que tenho é que são pessoas que ao dizer isso estão a puxar a culatra atrás, e ficam logo prontas a disparar.

Pronto, minto menos. É um facto. E não tenho mais nada (agora), para escrever sobre isso. Acabo com a revisitação dos anos 60, que há quem defenda terem sido anos de inocência e de defesa da verdade. Os The Byrds com “Your Lies” e muitos rapazes e raparigas a dançar, indiferentes a tudo isto.

Pensando bem sobre as minhas decisões ao longo da vida, noto que uma boa parte delas foram tomadas tendo a intuição como principal aliado. Desde muito cedo que passei a confiar na intuição mais do que deveria. Primeiro foram os estudos, que até certa altura eram tão fáceis que não necessitava de me aplicar para conseguir as notas que deixavam os meus pais babados, depois com o correr dos anos, uma de duas coisas acontecia, ou a matéria ensinada era para mim de compreensão imediata e tinha graças a isso uma boa nota, ou então não era e marrava na véspera dos testes deixando grande parte das respostas para serem escritas com base na intuição. Resultado, as notas deixaram de agradar a quem quer que fosse (isto a partir do 10º ano).

Com a excepção dos filmes, das músicas e dos livros, onde me aplicava a sério para tentar saber mais e aprofundar o meu conhecimento, o que nem eu admitia ser esforço, pois tinha como motor o prazer, tudo o mais era deixado ao sabor do vento ou da intuição. Lia num jornal sobre um curso de formação subsidiado pelo fundo social europeu e não ligava, no dia seguinte lia sobre outro e dedicava-lhe toda a atenção necessária para me levar a frequentá-lo.  A intuição decidia.

E pela vida fora fui seguindo neste caminho pouco claro e desorganizado, onde a intuição pesou sempre muito. Por vezes as coisas correram bem e os meus amigos diziam que tinha sorte, e não se enganavam pois em muitos casos foi isso apenas que esteve na base de coisas boas – a sorte. Outras vezes as coisas correram menos bem e eu dizia que melhores dias viriam. Sempre confiando na minha intuição que teimava em me assegurar que o melhor estava para vir.

Como já não sou capaz de ignorar os factos e esconder a cabeça debaixo da terra, decidi que a intuição deve ter menos importância que a dedicação e a entrega, por isso tento recuperar o poder da decisão para mim de uma forma mais pragmática do que antes, evitando que a intuição se antecipe e decida sem mais. Os resultados ainda não são visíveis, pois as decisões tomadas sob efeito de reflexão demoram algum tempo a produzir resultados, pelo que aguardo pelos próximos tempos para fazer balanços.

Isto não quer dizer que tenha abdicado da intuição, ela está presente e eu tenho-a em conta, só que já não é a única a ser tida em conta (com a possível excepção dos jogos de Poker, onde para arreliação de alguns amigos ela ainda pesa bastante).

Se eu fosse mais esperto talvez tivesse enveredado por este caminho mais cedo, mas teria acabado com algumas ilusões antes do tempo e teria terminado a adolescência com a idade devida, assim prolonguei-a no tempo e não posso dizer que  não me diverti e que não cometi as minhas ousadias. Deram alegrias e tristezas, mas permitiram-me chegar a este ponto em que sei exactamente o que vivi e sei que muito pouco ficou de fora. Daqui para a frente é uma nova forma de caminhar, a ver se acerto o passo e reduzo a velocidade. Se compenso com dedicação a redução da euforia e se experimento a sobriedade com o prazer de quem se pode inebriar com ela.

Uma das bandas que mais gosto, e ainda pouco usada neste blog. Os XTC encerram este post com o adequado “Senses working overtime”

Hoje de manhã estive na escola da minha filha. Todos os pais foram convidados a ir visitar os seus filhos durante o dia de hoje, para que juntos pudessem ouvir umas histórias, contadas por um senhor Argentino de nome Rudolfo, que adorava fazer caretas e imitar sons de pessoas e animais.

Foi muito bom, estar com a Íris no meio dos seus colegas, perceber a alegria que era para ela ter-me ali, na sua sala e depois na sala polivalente. Valeu tanto a pena que os cerca de 90 minutos que estivemos juntos souberam a pouco queríamos mais.

Aproveitar a existência de um dia a que resolveu chamar-se de dia do Pai, para estas iniciativas é algo que eu apoio com toda a convicção. O que me aborrece neste dia, como noutros existentes no calendário, é o seu aproveitamento comercial, de repente o significado possível para a existência de determinados dias fica oculto por trás de interesses comerciais, e isto é algo medonho.

 

 

Desde o final de 1989 até ao fim de 1993, estive envolvido num programa que se chamou “Jovem-a-Jovem. Basicamente era uma adaptação de uma fórmula testada em Inglaterra sob o nome “Teenex”, e que foi recebida em Portugal com o apoio do Projecto Vida. O factor decisivo da criação em Portugal de um programa deste tipo tinha a ver com o investimento que a direcção do Projecto Vida achou (e bem) dedicar à prevenção primária de comportamentos de risco entre os jovens.

Em traços largos o programa consistia na organização de semanas de trabalho de cinco dias apenas para jovens onde eram discutidas as questões que fazia sentido discutir para que não existissem tabus nem falta de informação. Assim, temas como a toxicodependência, a liberalização ou não das drogas, a Sexualidade, a Assertividade e a pressão de pares foram encaixadas num horário que permitia a 50 jovens de ambos os sexos discutirem estes temas durante cinco dias em ambiente protegido (normalmente pousadas da juventude).

A ideia era boa e a vontade de a aplicar também, eu fui um dos primeiros monitores (ali chamados de “facilitadores”) desses programas, por via da minha função de monitor no Centro das Taipas, embora não tenha sido alheio o facto da coordenadora do programa ser na época minha namorada. Devo ter feito nesses 4 anos cerca de 20 programas desses, tendo tido contacto com aproximadamente 1000 jovens (entre os 14 e os 21 anos), de vários cantos do país.

Hoje passados quase 20 anos sobre esse período noto que, apesar das discussões que existiram em torno do programa e das constantes guerras, quer entre facilitadores sobre modelos a usar, quer as guerras para manter o projecto de pé, mesmo com essas memórias, admito que um programa nesses moldes continua a ser algo que deveria existir e que que o estado deveria ser o primeiro a patrocinar a sua criação.

É óbvio que os temas e as suas discussões deveriam ser feitas à luz da realidade actual, e que uma boa parte das técnicas utilizadas necessitaria de um refresh, mas o essêncial continua a ser válido. A promoção de comportamentos saudáveis entre os jovens.Não por medo ou falta de informação, mas exactamente pelo oposto, porque o conhecimento lhes permite optar e com a informação correcta essa opção é na maioria dos casos mais adequada.

Não sei, na verdade, se existe algo parecido a decorrer, se assim é parabéns a quem organiza, mas também sei que se existe é praticamente obscuro dada a sua inexistente divulgação, e um programa deste género necessita de ser conhecido e abrangente, não só deve misturar jovens de vários cantos como devem provir de estratos sociais diferentes e culturas diferentes, só assim todo o potencial de um programa como este pode ser atingido.

Para mim já não existe nada que eu possa fazer num programa desses, mas para a minha filha poderia ser uma experiência importante.

 

 

Na viragem do milénio dediquei-me, durante cerca de um ano, a fazer subidas de bicicleta pela serra de Sintra. Aos Domingos de manhã, partia por volta das 10h00, o local onde ficavam os carros era na Atrozela e depois começava a subida da serra, durante cerca de uma hora pedalava até as forças se esgotarem, por sorte ao fim de algum tempo começaram a esgotar-se no alto da serra, e depois era a descer até Colares, onde se fazia um pit stop para beber coca-cola e comer um cubo de marmelada. O regresso fazia-se por percurso diferente mas sempre com o mesmo objectivo, conquistar novamente o alto da serra para depois descer para a Atrozela.

Durante estes passeios dominicais, nunca consegui descobrir muito bem com é que as minhas pernas resistiam, mas depois de deixar de pensar nisso comecei a usufruir da serra e a deixar-me levar pela sua beleza. Onde as árvores se cruzavam para tapar as gotas de chuva no inverno ou os raios de sol no Verão, é desses pedaços de percurso, onde o famoso microclima da serra se fazia sentir, que sinto saudades.

Depois por motivos vários deixei de poder efectuar esses passeios durante algumas semanas o que fez com que rapidamente perdesse a capacidade física para aguentar a serra, e a vontade de recomeçar não vingou pelo que a bicicleta foi encostada e hoje serve os meus amigos que são capazes de tirar proveito dela.

 

Ontem, dia 15 de Março, passaram 21 anos sobre o dia do meu juramento de bandeira. Tamanha foi a marca que o cumprimento do serviço militar obrigatório deixou em mim, que ainda hoje me lembro das datas. Entrei a 28 de Janeiro, fiz o juramento a 15 de Março e saí a 26 de Junho, tudo isso no ano de 1991.

A tropa foi algo do qual eu tentei esquivar-me, sem sucesso. Admito que as minhas opiniões sobre o serviço militar obrigatório eram completamente contra a sua existência, e ainda hoje defendo que a carreira militar deve ser uma opção e nunca uma obrigação, e se por qualquer motivo der por mim a defender um serviço comunitário durante um período que vá de 3 a 6 meses para cada cidadão, é porque acredito que a sociedade pode tirar benefícios disso, mas nunca confundi tal situação com a ida à tropa.

Foi uma experiência que rondou o traumático, estive durante 5 meses com a sensação de que estava preso, deprimi, emagreci, perdi vontade em respeitar qualquer tipo de hierarquia onde os elementos superiores fossem ali colocados por antiguidade, lambe-botismo e tendências sádicas. A minha tristeza aos poucos transformou-se em raiva e com o passar do tempo em completa indiferença para com aquelas pessoas. O efeito que isso teve nos meus superiores foi o de me considerarem alguém em quem o serviço militar devia apostar, alguém que segundo eles podia ser um exemplo para os outros, o ridículo da situação, era tal que eu passei a ser considerado um modelo. Eu que não me chateava com nada, não me queria envolver em nada, só queria que aquilo acabasse depressa, fui chamado quatro dias antes do juramento de bandeira ao gabinete do comandante do quartel (RIBE – Regimento de Infantaria de Beja), para ser por ele informado que no dia do juramento de bandeira, o meu nome iria chamado pelo microfone e que eu teria que aprender umas posições novas sobre como largar a arma e me dirigir de forma elegante por trás de todos os recrutas e depois pela lateral passar para a frente de todos eles e dirigir-me à tribuna, onde ele – o comandante, me iria entregar uma medalha. Imaginem o meu ar incrédulo, perguntei-lhe medalha por quê?, ao que ele me respondeu que iria receber uma medalha de mérito pessoal por ter sido o recruta com melhor comportamento (de entre 160) que entraram naquela incorporação. Retorqui que eles deveriam entregar isso a quem quisesse seguir carreira militar e não a alguém que preferia não estar ali. Isso não o demoveu e quatro dias depois lá estava eu a receber a dita medalha.Esse facto não alterou em nada a minha relação com o serviço militar obrigatório, apenas acrescentou mais força à minha noção de que tudo aquilo era um pouco fora da realidade.

Depois da recruta ainda estive dois meses em Cascais, onde tinha a vantagem de estar perto de casa e ter um canto na muralha onde me sentava a olhar o mar sem ser incomodado. O dia da alegria chegou pois a 26 de Junho.

A vulnerabilidade é uma sensação que me visita ocasionalmente. Sem marcar hora, nem sequer avisar que veio para estar uma hora, uma tarde ou um dia inteiro, ela aparece. Normalmente recebo-a com algum desagrado, procuro dar-lhe pouca atenção, na esperança de que não se sentindo bem vinda acabe por tomar a sensata decisão de me abandonar. Mas se existe uma coisa que eu já percebi sobre ela, é que não é muito atenta a esses sinais e insinua a sua presença independentemente da forma como é recebida (acho que ela tem um perfil sádico).

Depois de vários encontros e outras tantas tentativas das quais consegui escapar, ou porque fingi não estar e ela acreditou e foi embora, ou porque entretanto chegaram outras visitas e ela, que prefere visitar-me a solo, desaparece. Arranjei forma de a ter mais ou menos controlada, primeiro certo que estou de que as razões das suas visitas são invariavelmente as mesmas desde há anos, reuni uma mão cheia de argumentos que a deixam um pouco desorientada, depois quando ela menos espera, desfiro o ataque final e admito que ela não deixa deter razão, concedo-lhe esse prazer, que é o suficiente para satisfazer a sua necessidade sádica e a partir daí ela fica mais dócil e por vezes até inverte os papeis e acaba a consolar-me.

A minha relação com a vulnerabilidade é nesta altura fruto de vários anos de experiência e muitos anos de resistência, pelo que olhando para trás não posso deixar de considerar que existe entre nós um profundo conhecimento mútuo que nos permite deixar de inventar preliminares e conversas de cortesia e passar directamente aos assunto que nos ligam. Soubesse eu tratar desta forma outras visitas menos desejadas e poderia dizer que já conquistara na vida uma sabedoria relevante, mas ainda acredito que essa altura possa chegar. Por hora vou tentando decifrar os sinais que me aparecem sob todas as formas para perceber melhor o tipo de mundo em que vivo e o tipo de pessoa que eu sou nesse mundo.

Pode parecer algo vaidoso e sem grande significado, explicar a minha relação com a vulnerabilidade, mas eu sei, e ela também sabe que é dessa tentativa de explicação que eu necessito para a conhecer melhor e para lidar com ela de uma forma mais equilibrada, impedindo-a assim de ser ela a tomar sempre a posição do master e eu do obediente servant.

A grande vantagem de uma relação paritária com a vulnerabilidade é que deixo de me sentir ameaçado por ela e passo a reconhecer nela uma possível aliada. O que não quer dizer que não fique sempre um bocado apreensivo quando ela aparece.

emotion and landscapes – state of emergency – how beautiful to be

Danada seja a construção do novo bairro, mesmo em cima do único local onde podia passear o cão. E os novos vizinhos serão com certeza uns novos ricos cheios de maus-hábitos e pouca educação, quem é que quer afinal pagar uma fortuna por apartamentos onde cada parede é mais fina que uma fatia de fiambre e mais insonorizada que um pedaço de papel. Ali vão viver mais de 60 famílias, num conjunto de quatro prédios, cada um com quatro andares, e todos sem graça alguma. Modernos diz a publicidade que eles colocaram na minha caixa de correio. O que será que eles querem dizer com “modernos”, referem-se à falta de privacidade, ao amontoado de partilhas humanas forçadas, ou diz respeito apenas ao facto de cada prédio ter um sistema sonoro nas áreas comuns com música horrível a debitar a toda a hora que alguém entra ou sai de um daqueles apartamentos, se calhar não é isso, se calhar referem-se à piscina comum que em dias de grande calor pode ter que albergar mais de 200 pessoas. Quem terá associado esse facto à modernidade. Quem terá sido o grunho que optou por fazer da desactivação da privacidade o sinónimo de modernidade. Deve ter sido alguém com muita sede de dinheiro e pouco respeito pelos outros. Embora, os outros que decidirem morar ali pouco se dêem ao respeito, estão bem uns para os outros, quem constrói e quem compra é tudo fruto da mesma anestesia mental.

Agora vou ter de encontrar um local novo para ir passear o Cassius, talvez para os lados da auto-estrada, ficou por lá um terreiro que servia de estaleiro durante a construção e deve ser o único sitio aqui perto onde um cão possa correr em liberdade, isto se for um cão obediente e responsável como o Cassius, porque se for um desses que hoje se encontra muito sem qualquer tino para descobrir onde está é capaz de se enfiar encosta acima em direcção da auto-estrada e perder-se por ai até um carro o encontrar de frente.

Os homens que decidem o planeamento nunca pensaram nisso, nem nisso nem nos mortos, o cemitério está lotado mas eles continuam a fazer lá enterros, agora devem estar a convencer as famílias todas a cremar os seus entes falecidos, com a desculpa de que é mais higiénico os sacanas poupam espaço, e dentro de uns anos o que irão inventar? Talvez destruir o terreiro que resta e aumentar para aí o cemitério. E depois? para onde vão os cães passear. Para onde?

Novas rajadas de sol deixam o meu corpo mais dormente que uma comprida estada na cama. Não resisto a vulgarizar este Verão hipócrita que se lança sobre mim como se eu o desejasse. Não o desejo e tenho até alguma indiferença para lhe devolver. Vou fechar-me em casa em frente ao computador só para provar a mim mesmo que o dispenso. Os estores ainda deixam entrar parte dos seus raios para dentro, mas a luz do monitor é mais eficaz e rapidamente os coloca em segundo plano. Se um tom sombrio me ocupa os pensamentos é porque eu não consigo acreditar nas coisas fora do seu tempo. Não sou obsessivo mas tenho uma enorme vontade de sentir as coisas organizadas. Como se a minha omnipotência fosse posta em causa cada vez que elas aparecem fora do tempo e lugar a que pertencem. Existe um tempo e espaço para tudo, frase da minha mãe que ainda hoje me enrola as emoções mas cujo efeito ficou. Agora, por minha conta, vou deixar que as estações apareçam e desapareçam quando lhes apetece? vou permitir que esse movimento delas seja exterior a mim? se o fizer para quem vão servir todas as ordenações que ao longo dos séculos foram estabelecidas? Não pode ser, não posso deixar que assim aconteça, por isso vou lutar contra este Verão, vou informar todos que ele é falso. Porventura, fruto do desvario consumista do homem, até pode ser criação do Diabo, não pode é ser benigno. Agora é tempo de o denunciar, de exibir todas as atrocidades que ele provoca, não podemos ser indiferentes à seca e à aridez que nos atinge, ele pode causar estragos terrificantes, pode até espalhar-se para zonas onde a sua presença será mortal para muitos seres, seres de todas as dimensões e hábitos, dependentes da sua ausência. O primeiro passo a dar é reconhecer que ele é fonte de vida no seu lugar e que pode ser fonte de morte fora dele, o eros e tanatos do ecossistema. Depois temos de rapidamente desocupar os carros e as motas, bem como todos os veículos que poluem, para de seguida nos dedicarmos a evitar ingerir os produtos liofilizados, a nossa dieta tem de provir directamente da terra, não podemos aceitar embalagens, os nossos detritos devem ser naturais e por isso vamos evitar  tudo o que está embalado,podemos voltar a andar de carroça para percursos pequenos, ou então de bicicleta para percursos médios e em viaturas eléctricas para percursos maiores. Os animais devem ser todos protegidos, de nós e dos malefícios ambientais que criámos, quanto ao criar para comer, parece-me bem apenas se nos contentarmos em criar o suficiente e em condições dignas, todo o excesso deve ser banido, devemos excluir dos nossos hábitos todas as tentações colectoras, as crianças devem ser educadas de forma a perceberem que se querem mais produtos e gadgets deixam de ter um planeta habitável, se não forem capazes de viver com os brinquedos artesanais podem ficar sem poder brincar. Temos de reinventar as novas associações, refundar o Homem, fazer dele parte integrante do planeta e desistir da visão antropomórfica que nos guiou desde as Luzes, avisar as sociedades que ainda aqui não chegaram que não nos devem invejar, apesar de isto não ser tarefa fácil, pois como não invejar quem tudo tem? Depois, insistiremos que o único fim para o qual devemos estar todos de acordo é a nossa preservação, tudo o resto são fenómenos fruto do egoísmo e visam apenas o bem estar de poucos. Temos de admitir que o fim está próximo se nada fizermos, que somos responsáveis pelo destino, que devemos acarinhar o que o nosso berço natural nos dá e deixar de exigir coisas que não servem para mais nada além da auto-destruição, temos de fechar as fábricas que poluem, soltar os animais dos seus cativeiros, trocar as armas por máquinas de lavrar e começar a nova época das sementeiras, depois disso o sol com certeza vai aparecer no seu tempo, e a chuva também e todos nós vamos ser muito mais felizes.

Um post com este titulo é sempre arriscado nos tempos que correm, por via de uma conotação doente que nos tem vindo a ser colada ao cérebro. Só que esta é uma verdade pessoal à qual não consigo escapar. Estar com crianças e sentir a sua energia sempre foi uma das minhas alegrias, e ao contrário do senso comum mal instalado de que as crianças nos fazem velhos, eu sei que a mim me fazem novo, não só porque alimentam o Peter Pan que existe em mim, mas sobretudo porque não conheço nada mais rejuvenescedor do que o sorriso de uma criança.

Comecei cedo a tomar consciência desse efeito benigno que as crianças tinham em mim, talvez antes mesmo do que eu aqui me vou lembrar. Primeiro foram os meus primos João e Pedro, agora a baterem nas 3 décadas de idade, depois os meus outros primos Bruno e Marco (que me lembro de ter levado ao Aquaparque no fim de semana das terríveis ocorrências naquele espaço), depois surgiu o Tomé, este o primeiro do qual tenho consciência de ter estado perto a ver crescer, desde o nascimento até agora, e depois vieram os outros todos, os Lós (Mafalda, Toninho e Quico), a Joana Garrido, o Franças, e o Pedro todos amiguinhos do Tomé (e meus!), os meus sobrinhos cada um mais lindo que o outro numa roda viva de quatro seres (a Catarina, o Pedro, a Camila e o João), as Vinagres (Joana e Filipa), o Britinhas (que se chama Francisco e é filho do meu amigo Luís, ganhou esta alcunha porque o pai o embalava como se fosse uma britadeira quando ele tinha uns tenros dois meses), as Pinhos (Beatriz e Violeta), o Sázinho, a Raquel que nasceu no meu dia de anos, as Bacelares (Marta e Maria), a Serôdia (Martinha), as Mimosos (Sofia e Rita), os Venâncios (Nuno e Sara), a Maria Luís (que mal a vi mas gosto do que conheço), o Altenor Jr (que ainda só vi de fotografia e tem como verdadeiro nome Benjamim). E mais existem que a minha cabeça de alho chocho não se lembrou agora.

Claro que a criança que mais gosto tem o nome de Íris e graças a ela já existem mais crianças no meu mundo, as suas coleguinhas Leonor, Matilde, Isabel e as Bárbaras.

Mas este post ocorreu-me ao pensar que hoje chega aos 16 anos a Ritinha (irmã do Tomé), ela foi desde os dois meses de idade todos os anos à Mina de S. Domingos na época do meu aniversário, é uma miúda que vi crescer e que passou de bichinho do mato, agarrada ás saias da sua mãe para uma adolescente cheia de personalidade. Hoje chegou o dia em que passa a senhorinha, e a sua mãe já me confidenciou que se vestiu a rigor para ir para a escola – “estava tão linda a Rita hoje de manhã” disse-me a Ana ao telefone.

Parabéns Ritinha, desejo muitos e bons e quero que saibas que fazes parte deste enorme grupo de crianças que me ajudam a sentir novo. Beijos.

Tentei evitar o cliché do Billy Idol, mas o Neil Sedaka, Chuck Berry, Hillary Duff e demais mostraram-se piores alternativas, para além de que existe algo neste tema que eu gosto, deve ser por o ter conhecido perto dos meus 16.

Foi em 1979, aproveitando um concerto no pavilhão Dramático de Cascais que os The Stranglers decidiram gravar o videoclip para “Nuclear Device”, aquele que viria a ser o segundo single para o álbum “The Raven”. Tendo gostado muito da praia do Guincho, decidiram que era ali que iriam rodar as imagens para o seu Apocalipse pós-nuclear, as dunas e a vegetação ao redor da praia criavam o cenário perfeito para esses intentos.

Tendo em conta que é um produto pré-MTV, o resultado não se pode considerar desastroso, chegando a ter algum acerto na imagem e ritmo sem recorrer a alguns efeitos que nos anos seguintes viriam a estragar muitos videoclips.

Aqui fica ele.

Desde Sexta-feira que ando a dar guarida a um vírus da gripe malévolo, um daqueles que me deixa com o nariz completamente obstruído, o corpo todo dorido como se tivesse participado numa maratona, o frio e o calor aparecem em sensações rápidas e na maioria dos casos a despropósito (quando está quente sinto frio e quando está frio sinto calor), para ajudar à festa sou incapaz de portar com juízo nestas alturas. Sexta e Sábado  fiz passeios pelo paredão, desde a Poça até ao Tamariz (no Sábado fiz este percurso de ida e volta duas vezes, a acompanhar a Íris que estava montada na sua bicicleta), sempre com este sol de Inverno a acompanhar-me. Resultado hoje estou aqui que só me apetece enfiar bebidas a escaldar pela goela abaixo e ler, ler até que o sono seja mais forte que a confusão de líquidos que sinto terem ocupado mais do que o meu nariz, agora encaminham-se para o cérebro e toda a minha cabeça parece congestionada de muco.

Penso que ao longo dos meus anos, já foram muitas as gripes que me atacaram, felizmente só meia dúzia delas me trouxeram até este estado, porque a grande maioria foi tratada com enorme indiferença da minha parte e os vírus debandaram amuados sem causar grandes estragos. Tenho sido resistente e acredito que muita dessa resistência vem do facto de eu ter tendência a negligenciar os sintomas, só que quando me é impossível fazê-lo, então devo ser o pior piegas que existe, uma simples gripe deixa-me com a sensação de estar a viver uma doença terrível. Só resisto até ao derrubar do dique, depois disso, bem depois disso é: tomem conta de mim estou doentinho.

Ontem soube que uma amiga minha está neste momento a passar por uma chatice que me deixa seriamente preocupado com o rumo que estamos a tomar enquanto sociedade.

Em traços largos, o problema da minha amiga resume-se ao seguinte: ela é uma pianista que graças a um casal de vizinhos está impedida de tocar piano em sua casa, impedida de ensaiar para os concertos ou de pura e simplesmente manter o treino. Possui um piano de quarto de cauda e vive num edifício de apartamentos novos, daqueles que não são muito acessíveis financeiramente e onde os vizinhos em causa são, pasme-se, não um casal de velhotes resmungões mas sim um jovem casal.

Depois de várias chatices, a minha amiga que nunca tocou depois das 20h, nem antes das 10h, resolveu reduzir os seus períodos ao piano, Depois manteve a tampa fechada e por último recorreu a cobertores que colocou em cima do piano. Mas nem assim, o casal insiste que o piano os incomoda. A minha amiga pediu-lhes depois que sugerissem horas em que ela pudesse tocar sem os incomodar, nada feito porque a vizinha (designer de interiores) trabalha em casa e por isso a todas as horas se sentiria incomodada.

Depois do Miguel Sousa Tavares a sugerir que as crianças que se comportam como crianças fossem impedidas de ir aos restaurantes, juntar histórias como esta, fico com a sensação de que evoluímos para uma espécie de sociedade asséptica e insonorizada onde só restará o silêncio das nossas solidões.

É preciso dar a este post o grito que ele merece por isso acabo com os UK Subs e “Emotional Blackmail”

As histórias que conto à minha filha são inventadas e, não raras vezes, acontece faltarem-me  assuntos que no momento possa desenvolver e criar uma história nova para ela, por isso vou criando em círculos, inventando a partir da última que lhe contei e tentando desenvolver uma cronologia dos personagens que faça algum sentido para ela.

Inicialmente ela limitava-se a ouvir a história, sendo reduzidas as suas intervenções, agora, com o medo do fim das mesmas histórias ela vai colocando questões sobre as personagens e o porquê dos seus comportamentos para prolongar o tempo em que vivemos os dois nessa fantasia. A verdade é que com essas perguntas ela me ajuda a desenvolver mais e me ajuda também a perceber o entendimento que ela vai tendo dos personagens e situações vividas por eles, bem como deixa escapar o que lhe interessa mais.

Quando me imaginava pai, antes de o ser, fantasiava com a imagem do adulto sentado na beira da cama a ler-lhe um livro, hoje 6 anos passados após o nascimento da Íris essa imagem desapareceu sendo substituída pela do adulto que se procura desenvencilhar num mundo de fantasia que ele próprio criou para oferecer sob a forma de história à sua filha. Só que esse mundo não é tão distante da nossa realidade, diria mesmo que as minhas história vivem dum naturalismo acentuado, a como estão sempre em fase de construção passaram a ser co-criadas pela Íris.

Não me lembro dos meus primeiros 6 anos de vida, o tempo que vivi em Angola. Mas, imagino que deveria adorar histórias.

As coisas que poderiam ter acontecido e não aconteceram, as que aconteceram de forma diferente e todas as outras variações que me levam a deter-me, por vezes, na expressão “e se…”

Não são assim muitos os ressentimentos ou os desejos de voltar atrás, mas mesmo pensando desta forma não deixo de me colocar, hipoteticamente, nalgumas situações relevantes da minha vida, em modo de actuação alternativa. Imagino o que poderiam ter sido os desfechos de certas vivências se a minha decisão tivesse sido outra. Mas, por mais voltas que dê, fica sempre a sensação de que o passado apenas pode servir como guia para o futuro e nunca como alternativa ao próprio passado.

Por isso, o que está feito está feito e não pode ser desfeito.

Nem de propósito, “Ghost of a Chance” – o magistral saxofone de Lester Young.

Estava à espera de quê? Afinal para que serviam todas as horas gastas a ensaiar este momento? Não houvera ela simulado mentalmente toda esta situação? E agora onde é que estavam as suas deixas? Escondida por trás de um copo com vinho, ela olhava para ele como se de um ser alienígena se tratasse, um daqueles seres que num só gesto são capazes de nos conduzir pelos caminhos que eles traçam e nos quais nós não conseguimos introduzir qualquer aspecto da nossa vontade. Uma espécie de hipnotismo interplanetário que a impedia de articular qualquer palavra. Assim esteve durante largos segundos, até que o reflexo do seu rosto no copo, quebrou o feitiço.

– Acho que podemos sim, podemos ver no que dá – disse ela finalmente.

Ele olhou para o copo na mão dela, como se tivesse compreendido que ali estava uma fórmula mágica capaz de prolongar o momento e sorriu para o copo. Depois pegou no seu copo e levou-o à boca bebendo num único trago todo o liquido que ele continha. Levantou-se de seguida e dirigiu-se para o outro lado da mesa, ficando em pé ao lado dela.

– Talvez não seja má ideia! Talvez possa até ser a única coisa certa a fazer – disse-lhe olhando para baixo na direcção do seu decote.

Ela voltou ao estado hipnótico e ficou imóvel, não sabia se contrariava os seus impulsos ou se eram estes que a mantinham naquela imobilidade. Nunca tinha vivido um momento assim. Sempre fora dominadora de todas as situações e essa era a sua imagem de marca – o controlo, a segurança com que previa todos os acontecimentos e se antecipava a eles. Mas agora tudo isso parecia pertencer a outra pessoa. Baixou o copo, e colocou-o na mesa, depois olhou para cima e percebeu o olhar dele fixado no seu. Esse foi o momento em que voltou a si e entrou de novo na realidade do momento.

– Ok. Qual é então o próximo passo? – perguntou-lhe com a segurança na voz que transmitia preparação para qualquer resposta dele.

Ele pegou-lhe na mão, que acabara de ficar livre do copo e ajudou-a a levantar da cadeira, assim que o rosto dela ficou em frente do seu, decidiram ambos, numa frequência telepática situada num canal só deles, que aquele era o momento e beijaram-se. Como num filme protagonizado por galãs e divas tudo em redor deles rodou, apenas eles se mantiveram no mesmo lugar enquanto o mundo girava em torno deles.

 

Nervosismo idiota que me impede de reconhecer a presença calmante da noite. Sempre que me viro naquele reboliço que enrola o edredão por baixo do meu corpo, sei que o martelar constante das preocupações me afasta do desejado sossego, e num circulo vicioso, entrego-me aos pensamentos mais instáveis que a minha mente se lembra, que mais não fazem do que criar com o meu cérebro um angustiante jogo de gato e rato, mostram-se e dizem-me que estão ali, mas não se deixam apanhar, nem sequer me deixam aproximar deles para os olhar de frente, escapam e colocam outro no seu lugar. São tantos os pensamentos que podem ocorrer numa noite dessas que é difícil contabilizá-los. Claro que existe um que os despoleta a todos, e é esse que tento isolar para lhe dar a devida atenção e evitar que me fuja, mas nem sempre o consigo, ou quero, ou sou capaz.

 

“We find delight in the beauty and happiness of children that makes the heart too big for the body” Ralph Waldo Emerson
.

A alegria existe. Tem um rosto. Sorridente, com olhos ora castanhos, ora verdes, um cabelo encaracolado, loiro, denso e forte. Tem uma energia inesgotável que quando decide repousar parece que foi o mundo que decidiu parar. Tem uma propensão para elevar todos os nossos sentidos, agarra-nos e leva-nos com ela num turbilhão eléctrico de sensações. A alegria dá-nos a mão sempre que nós pedimos, e sempre que o não fazemos ela toma a iniciativa. A minha alegria tem um nome – Íris.

Para terminar uma espécie de dedicação, um convite para uma viagem ao som dos Altered Images, com a belíssima voz de Clare Grogan e a acompanhar imagens de uma das princesas preferidas da minha filha.

Algum pragmatismo de vez em quando nunca fez mal a ninguém. Pode-se ser mais pragmático na vida do que aceitar o seu fim. Por mais incógnita que seja a data, ela existe. Por isso, às vezes, tomando esse dado como ponto assente, temos que nos concentrar no presente e nas suas possibilidades.Isto leva-nos a resoluções que não imaginaríamos como razoáveis antes.

Constatação primária, as coordenadas pelas quais habitualmente nos regemos, ganham sob este prisma pragmático uma certa flexibilidade, não digo que desaparecem, mas abrem espaço a que se pense em alternativas, a que se organizem os pensamentos de outra maneira e depois de muitas voltas (e reviravoltas), podem chegar conclusões novas e decisões inesperadas.

Todo este prelúdio argumentativo para racionalizar uma única coisa – tenho que imigrar.

Foi assim, que aconteceu, depois da teimosia, do capricho, do orgulho, da procrastinação, da raiva, da dor e do quase esmorecimento que surgiu a vez do pragmatismo, e ele vai levar-me para fora.

NOTA: para além de ser o titulo deste post (traduzido para português), a música que encerra este post, é uma das minhas músicas de sempre, daquelas a que regresso com frequência.

 

No outro dia explicava à minha filha que toda a gente tem medos, que é normal ter medo, só não podemos deixar que os medos tomem conta de nós. Até aqui tudo não passou de um normal aconselhamento paternal, baseado em experiência pessoal e muitos anos de imersão em doutrinas mais ou menos psicológicas. Depois a minha filha colocou a questão que qualquer ser racional colocaria e que foi: Quais são os teus medos pai?

A minha resposta começou por não dizer nada, ao dizer-lhe – São muitos filha. Mas depois decidi dar-lhe algo mais concreto e disse-lhe que tinha medo de morrer. Apercebi-me de que a minha resposta poderia ser catalisadora de medo e apressei-me a acrescentar que tinha medo de ondas grandes e de cães que não conheço.

Hoje, dois dias passados, ainda me fazem eco no cérebro estas palavras e o olhar da minha filha, tentando ver nos meus olhos de que forma os meus medos eram genuínos.

A cultura do medo não é uma coisa bonita de assumir, mas acho que todos contribuímos para a sua perpetuação.