Archive for the ‘Ouvidos – Actual’ Category

As ramificações do que se escreve num blog, são várias e nem sempre as previstas. Sei disso desde que concebi este mesmo blog, mas mesmo assim decidi avançar e agora ao olhar para trás (quase um ano), tenho a certeza que muitas foram as curvas percorridas por alguns posts, enquanto outros ficaram quietinhos no seu sítio sem criar alarido ou sequer um pestanejar depois de expostos.

É uma rara forma de escrever, esta, que nos permite por cá para fora o que às vezes está bem dentro, sempre com uma certa protecção, aquela de quem não pode levar com tomates podres ou cuspidelas, por piores que sejam as frases que despeja. Não sou modesto nem arrogante, por isso sei que o que escrevo é normalmente fraco, e algumas vezes muito fraco. Gramaticalmente existe a pontuação, sempre às avessas, uma deformação da formação que ainda não foi corrigida, em termos de conteúdos o leque é tão grande que por vezes reina a confusão, quanto à construção, ora não existe um principio ora não existe um fim, e quase nunca um meio. A exposição tenta ser ligeira onde deve ser séria e é séria onde deve ser ligeira, isto acarreta, como consequência directa, uma forte sensação de estar a ler textos forçados e pouco originais. É verdade em todos os sentidos, forçados porque muitas vezes me obrigo a escrever, tendo apenas a vontade como tema para desenvolver, pouco originais porque mimetizo alguns textos que vou lendo de outras pessoas e acabo por fazer, sem o talento delas, cópias pouco dignas.

Não estou no modo masoquista, esta pensamento auto-critico é acompanhado de uma enorme certeza, criar este blog foi das decisões mais acertadas que alguma vez tomei, e colocar posts novos, quase todos os dias, um dos rituais mais apetecidos que alguma vez tive. Por isso não é com tristeza que exponho as fragilidades, pelo contrário, é com esperança na possibilidade de recuperação de algumas delas.

Antes de ter percebido de que forma iria conseguir preparar uma refeição para dez pessoas, demorou-se a debater consigo próprio sobre as posições que cada um ocuparia na mesa. Se sentasse a Sofia ao seu lado, qualquer olhar que lhe dedicasse iria ser percebido pelos outros. Se a colocasse à sua frente ainda mais denunciado seria o seu acto, porquê ela em frente do anfitrião, para além de que ficaria no outro extremo da mesa, o que tornaria difícil participar com ela naquelas sub conversas que surgem sempre nestes jantares com muitos participantes. E se decidisse sortear lugares, cada um dos comensais escolheria retiraria de um saco um papel com um número de 1 a 10, que corresponderia aos números previamente numerados nas cadeiras, só que assim tudo dependeria da sorte, e a Sofia poderia voltar a calhar longe dele. Não existia solução perfeita, se optasse por  ficar à cabeceira como bom anfitrião e permitisse aos seus convidados escolherem os lugares onde se queriam sentar, assim poderia perceber se a Sofia queria ficar perto dele, esta solução só tinha um problema, a timidez dela poderia fazer com que os outros escolhessem antes e ela acabaria com o lugar que restasse, e esse nunca seria perto de si, pois a Madalena, o Tiago e a Teresa iriam querer ficar perto dele para poderem falar à vontade sobre o novo filme que viram ou o novo disco que ouviram. Outra possibilidade era alternar homens e mulheres, tendo em conta que existiam dois casais formados poderia empurrar esses quatro lugares para o lado oposto da mesa, mas mesmo assim teria a Madalena, o Tiago e a Teresa a quererem ficar perto dele e a arranjarem forma de mantendo a alternância conseguirem os seus intentos. Desistiu. Já estava na hora de começar a preparar o jantar.

Todos o ser humano a partir de determinada idade tem a noção da fragilidade da vida. De que ela pode terminar a qualquer altura sem aviso prévio nem motivo óbvio. No fim de semana passado aconteceu uma coisa que vem provar isso e ao mesmo tempo consegue abrir uma porta sobre o seu contrário.

O caso foi noticiado em todo o mundo, durante um jogo de futebol da primeira liga inglesa, um jogador de seu nome Fabrice Muamba cai inanimado no relvado e é assistido ali sem grandes resultados e depois transportado ao hospital, onde durante largo tempo as noticias não saíram deixando antever o pior cenário.

Mais tarde surge o primeiro comunicado a informar que o jogador já tinha o coração a trabalhar, embora com auxilio de máquinas, depois o momento seguinte surgiu um dia depois quando segundo comunicado informa que o coração continuava a trabalhar, agora sem o auxilio de máquinas. Os médicos passaram a apresentar expectativas cada vez melhores sobre o desenvolvimento do seu estado de saúde e hoje dizem que para já está afastado o pior cenário.

Mas o que torna o caso Muamba extraordinário são os seguintes factos. O jogador, segundo informações do médico que o acompanhou desde o estádio, esteve 78 minutos “morto”, ou seja, sem batimentos cardíacos, com o coração literalmente parado, recebeu 14 electro-choques sem qualquer resultado. Só ao 15º é que sentiram os primeiros batimentos cardíacos.

Embora não sendo um grande espectador de séries de ficção passadas em hospitais, tenho para mim que a ideia de que algum paciente possa estar este tempo todo sem sinais cardíacos, e o staff que o rodeia insista, é algo de extraordinário. A persistência de uma equipa de médicos e enfermeiros que 78 minutos depois de uma paragem cardíaca e 14 electro-choques infrutíferos ainda está disposta a tentar mais é uma prova de que as boas vontades se concentraram ali.

Claro que agora, vamos ouvir os ingleses a defender (já começaram aliás) a elevada qualidade dos seus profissionais de saúde, vamos ouvir os crente necessitados de milagres a expor este caso como sendo um, vamos ouvir uma série de outros elogiarem a capacidade de resistência do ser humano, e muito mais explicações para a situação.

Mas a verdade que me deixa intrigado é o facto de 78 minutos não serem 78 segundos, de como é impressionante uma pessoa que esteve “morta” durante a quase duração de um jogo de futebol, ter regressado e acima de tudo ter regressado com esta pérola confidenciada por um dos médicos que o acompanhou. O médico ter-lhe à dito, pouco depois de Muamba ter sido informado sobre o que lhe acontecera, que havia recebido informações de que ele era um excelente futebolista, ao que Muamba respondeu  – Eu tento.

Tive muitos sonhos (projecções) sobre o meu futuro, quase todos dedicados a situações pontuais que queria viver,experiências que queria ter e emoções que queria sentir. Nem tudo foi realizado, até agora, mas uma boa parte cumpriu-se com maiores ou menores desvios em relação à forma original inscrita nos meus desejos.

Mas houve projecções que estranhamente, ou talvez não, nunca tive. Por exemplo nunca dei por mim a projectar com que tipo de mulher iria viver, que tipo de profissão iria ter ou que tipo de carro iria conduzir. Em certos aspectos sempre foi a realidade que impôs a sua verdade e nunca tiveram que combater com uma projecção idealizada na minha mente.

Uma única projecção foi significativamente inferior à realidade, refiro-me ao facto de ser pai. Desde cedo que fantasiei sobre isso e claro que muitas imagens me ocorreram, as brincadeiras que iria fazer, as conversas que iria ter e as emoções que iria partilhar. Tudo isso foram no entanto imagens inferiores àquela com que a vida me presenteou. Hoje posso dizer, mesmo correndo o risco de parecer mais um pai babado a falar da sua descendência, que a minha filha é muito melhor que qualquer fantasia que tive sobre filhos. É assim, porque tem uma personalidade forte, mesmo quando faz de mim um pai mandado, reconheço que é de forma ostensiva, como se não precisasse de ocultar do pai os seus verdadeiros motivos, o que me deixa feliz. Zanga-se, amua, faz birras e chora, mas tudo isso de uma forma que é tão à flor da pele que só me apetece cobri-la de beijos a abraços, ou o chamado “miminho” bom, nome que damos aos segundos em que nos abraçamos com ternura.

O resto das projecções, que ainda vou fazendo, passaram a ter outro valor desde a chegada da Íris e muito do que a minha cabeça imagina para a frente envolve-a. Existe uma parte de mim que pensa no meu futuro, com a profissão e carreira a necessitarem de constantes ajustes, algumas fantasias deram lugar a outras mais adequadas à actualidade, mas  no que a ela diz respeito existe muita fantasia ainda por concretizar, muita experiência para partilhar, que resistirá mesmo no dia em que ela adolescente me aparecer com um puto de mão dada pela frente.

Por falar em projecções, arrisco a fazer mais uma para fechar este post. Prevejo que um dos discos deste ano será “Mixed Emotions” o álbum de estreia dos Tanlines. Aqui fica o videoclip de “Brothers”, tema de apresentação do disco.

Vulgarizado pelos acidentes noticiosos, a sua queda passou despercebida. Esquecida e ignorada foi como se apenas ele a tivesse vivido. Nunca as dores foram tantas, o seu corpo pedia-lhe os maiores cuidados, numa luta desgastante todo ele corria para acalmar quantas dores conseguisse, nunca sendo capaz de cuidar de todas. Desistiu e deixou-se ficar quieto, esperando que o tempo aliviasse e resolvesse todas as fracturas.

Deitado olhava para as coisas como se estas fossem capazes de o entender e de perceber o seu sofrimento, escondido no seu silêncio. Um copo adivinhava-lhe a tristeza, uma lâmpada apontava-lhe a angústia e todos os objectos lhe reconheciam o cansaço. Em vez de os odiar pela capacidade para o desmascarar, ele tinha-lhes afecto. Funcionavam como companheiros desta viagem, sempre dispostos a partilhar mais uma paisagem, mesmo sabendo que essa paisagem era sempre o seu rosto. O relógio, o mais irrequieto de todos os objectos, ia a vinha enquanto o seu olhar se demorava na maçaneta da porta. Queria que ela se mexesse, que os sinais de vida do exterior se materializassem naquela maçaneta. O seu olhar raramente se desviou dela até que exausto, deixou de acreditar na possibilidade dela alguma vez se mover e fechou os olhos. Mesmo assim, de olhos fechados, sabia que os objectos da sala o olhavam. Inclinou a cabeça para trás e através da janela via a montanha ao fundo, coberta de neve e as nuvens que passavam sobre ela.

Depois de uma noite repleta de actividade, entre o sonhar e o acordar houve leituras e cigarros, depois mais sono e mais sonhos. A manhã passou devagar como se não existisse nenhum motivo para me levar até à hora de almoço.

Ocupei-me com os sons do David Sylvian e a sua companhia tornou a manhã ainda mais lenta e mais indolente.“Here come the darkest birds / All tar and feathers / Why did none of them dream of trying / To make things better”

Nos meus pensamentos circularam vários tópicos, todos eles afastados uns dos outros, uma paleta de memórias e desejos, aberta para a minha consulta rápida, sem que nada me fizesse deter em algum ponto especifico. As reviravoltas mentais corresponderam a mais copos de leite e cigarros numa preguiça considerável.

Ao ligar o computador as coisas não se alteraram, os vários passeios pelas páginas habituais apenas prolongaram o efeito que vinha de trás. Uma noticia que vale a pena explorar, mais tarde, uma curiosidade que consegue fazer-me pensar dez segundos sobre ela, uma música que não me satisfaz durante muito tempo e uma previsão meteorológica que confirma o que os meus olhos conseguem ver.

Lá fora não é apelativo, cá dentro não existe mais para fazer. Um sabor novo invade a minha garganta ao comer metade de um bolo que sobrou de ontem, mais um copo de leite e respectivo cigarro. Nada se altera.

Não é possível obter estados de inebriamento sempre que se deseja, é uma lição que aprendi cedo mas da qual continuo a duvidar. Tenho pretensões a descobrir algo que contrarie esta realidade.

“And this is the road I walked on / When I shot you down / All words of forgiveness useless” assim entendi o David Sylvian, que entretanto regressou.

As imagens podem ser banais ou fascinantes, podem deixar-nos sem palavras ou entediados, quando são boas, não são inócuas, quando valem a pena são elas que nos conduzem a mundos novos, através delas a nossa mente pode viver experiências fundamentais para o nosso crescimento e auto-conhecimento, as emoções podem variar entre o prazer e a angústia, mas se as imagens forem boas o resultado final dessas será sempre positivo.

Existem filmes, documentários, videoclips e até spots publicitários que conseguem alcançar essa maravilha que é por o nosso cérebro a reflectir ao mesmo tempo que o nosso coração está a sentir.

Aqui coloco o mais recente conjunto de imagens que me deixou nesse estado. É um pequeno videoclip e uma enorme pérola. Nele todos os factores se conjugaram, a música, as vozes, a letra e as imagens.

Primeiro um excerto da letra:

“You never worship, you never worship your life. You never worship, you never worship your life. All the while you’re standing still you’re always in the past. You won’t let the good times in, if you do, you make sure they won’t last. Can’t you see the lights they’re shining to lead you back again? My heartbeats can be a silver lining just listen well to them.”

E agora o vídeo:

A primeira vez que me confrontei com a passagem dos anos sobre a minha carcaça foi quando tomei consciência de que era mais velho que a grande maioria dos jogadores de futebol profissional, o que aconteceu na viragem do milénio. Agora esse fenómeno ocorre sempre que um grupo de putos com talento aparece no meu radar musical. É uma sensação paradoxal, se por um lado me regozijo com o facto de ainda ser capaz de estar atento ao que se vai fazendo de novo, por outro lado não consigo esconder de mim mesmo a diferença de idades que levo sobre esses miúdos.

A primeira banda que me deixou assim embaraçado foram os Arctic Monkeys, tão novinhos que eles eram em 2005, depois disso uma ou outra nova banda foi aparecendo que me fez sentir o mesmo e a mais recente são os The Front Bottoms, dois putos de Nova Jersey, que para além do jeito e do lado descomprometido com que se apresentam, mostram umas carinhas de recém saídos da puberdade que me faz uma certa aflição. Mas idades à parte, os rapazes deixam a certeza de que vale a pena ouvir a sua música e estar atento ao que irão fazer. Editaram no final de 2011 o seu terceiro disco (sim terceiro!), embora tenha sido o primeiro lançado por uma editora, os dois anteriores haviam sido lançados em edição feita por eles próprios. O videoclip de “Maps” (que encerra este post), é um excelente cartão de visita para a sua música, uma mistura de punk-dance-folk cheia de vitaminas e frescura. Para ajudar o próprio clip é muito bom, feito sem corantes nem conservantes, aproveitando a juventude dos rapazes e a batida da música para nos guiar por uma pequena viagem deles pelo seu território. A ouvir e ver.

O mundo não está na melhor forma e os seres que nele habitam também não (pelo menos a grande maioria dos humanos). Se isto serve de consolo a alguém com desejos de catástrofe, a mim não me serve de muito. Só que enquanto divago pelas noticias que fazem os dias correr, apercebo-me que nunca tive muito jeito para arauto da desgraça e que como tal sou destituído de qualquer sentido dramático, acabo sempre por parecer monótono a falar de coisas menos boas. Pelo que tenho apostado ao longo da minha vida em amplificar as coisas boas, sobretudo as coisas que gosto, aí sinto-me mais à vontade e com mais capacidade, embora possa melhorar na dose de entusiasmo que por vezes me leva a ver em todas as promessas, certezas.

Mas com a minha adesão às redes sociais dou por mim a mudar alguns hábitos (ou por isso ou então pela idade), a verdade é que por vezes sou levado a construir sobre mim um perfil de cidadão preocupado que se esforça por passar mensagens sobre as injustiças, crueldades e outros crimes, que embora me deixem espaço para alguma sensação de dever cumprido, nunca me fazem sentir satisfeito. Como se a denúncia da desgraça apenas servisse para reduzir e nunca para aumentar. É com as coisas boas que eu consigo esse efeito de engrandecimento, só com elas consigo elevar para lá da rotina. Será isto um sinal de eterno optimismo ou, como é hábito dizer-se actualmente, quererá antes significar uma tentativa de alheamento da realidade? Nos momentos mais positivos aposto na primeira hipótese, nos outros deixo-me cair para a segunda.

Existe um mundo paralelo ao nosso, em que os nossos sonhos e pesadelos se encontram em forma real, é um mundo cheio de heróis e vilões, não como este em que vivemos, em que tudo se esbate. Sempre que as definições aqui se tornam dúbias é só dar uma vista de olhos no outro mundo para perceber melhor em que pé estão as coisas.

O branco é pureza e o preto representa os sentimentos negativos, muita da iconografia dos westerns foi construída sob estes pilares, era mais fácil identificar numa só imagem de que lado estava cada um dos personagens. Um guia básico para os comportamentos humanos reduzido à questão crucial. És mau ou és bom?

Agora que o western está fora de moda, é mais difícil descobrir de que lado estão os personagens e de que forma se vão comportar. Agora o mundo já não necessita de heróis e vilões, de justiceiros e criminosos, precisa apenas de pessoas comuns que saibam de que lado estão. Mas não é fácil, porque para perceber isso temos de as conhecer, temos de nos conhecer, de verdadeiramente as sentir, de verdadeiramente nos sentirmos, e quando o fazemos não se revela a verdade, apenas a nossa escolha. Mas é para isso que deve existir o relacionamento humano, para que possamos decidir de que lado estão os que nos rodeiam, e de que lado estamos nós.

Can we get much higher? So high.

 

É uma experiência ver o filme “Shame” de Steve McQueen. Um filme que olha para o corpo e para intimidade humana com a desconcertante frieza de um diagnóstico.

Um filme onde não existe qualquer tipo de veneração da sexualidade ou sequer uma tentativa de olhar o corpo humano feminino ou masculino pela sua beleza ou graciosidade. “Shame” (“Vergonha” tradução literal em português) é um filme como poucos na sua capacidade para nos entregar as mais vivas e cruas emoções da solidão contemporânea nas cidades. Feito com a paciência de quem elabora uma filigrana, momento a momento, temos o tempo que necessitamos para entrar no mundo de Brandon (soberba interpretação de Michael Fassbender), e fazer com ele a viagem do despojamento e da entrega, não uma entrega no sentido de causa, antes uma entrega à ausência de qualquer tipo de causa. É o corpo que se entrega, já não pelo hedonismo das décadas anteriores, mas sim pela cedência ao vazio, é antes uma rendição ou uma desistência, nunca uma luta por qualquer objectivo.

A cidade de Nova Iorque como pano de fundo a esta alegoria da vida sem destino, é uma personagem activa no sentido em que só na cidade, na grande cidade, é possível este sentimento de perda, de indiferença na entrega da nossa intimidade.

Com tanta crueza é apesar de tudo um filme cheio de momentos bonitos, mesmo que essa beleza encarne na solidão dos olhares.

Poderia encerrar este elogio a “Shame” com um excerto do filme, ou mesmo o trailer, mas prefiro destacar um músico e as suas canções. Trata-se de Simone Felice (apesar do nome é um homem, e faz parte do colectivo Felice Brothers), que acaba de editar um álbum a solo, que será, quase de certeza, um dos melhores discos de 2012 para mim. De lá vem este tema “New York Times”, aqui também apresentado num videoclip sem aditivos.

Entre 1991 e 1997, trabalhei num apartamento terapêutico de saída, para toxicodependentes. O apartamento funcionava como a última fase, a terceira, de um processo de que começava numa comunidade em meio rural, perto de Lisboa, continuava para outra comunidade em meio rural afastada de Lisboa e terminava no apartamento num subúrbio de Lisboa. O apartamento tinha capacidade para 7 residentes (apenas do sexo masculino a partir de 1992) mais um monitor.

Duas noites por semana o meu trabalho era jantar, passar o serão e dormir no apartamento, ficava depois quatro noites fora, o que fazia com que em cada semana avançasse um dia, por forma a num mês ficar em quase todos os dias da semana, incluindo fins de semana. Do programa do apartamento faziam parte duas reuniões obrigatórias para os residentes. Uma ao Domingo em que se planificava a semana seguinte, coordenada pelo monitor, e outra à quinta-feira, chamada de reunião terapêutica em que 2 psiquiatras coordenavam a reunião.

Esses sete anos foram uma das mais ricas experiências da minha vida, tive contacto com muitos toxicodependentes, e vivi situações carregadas de emoção.

Uma das frases lema que me ficou desses tempos é a frase que dá título a este post, e que basicamente se refere a todo aquele que ao ser confrontado com um erro se procura desculpar inventando toda a espécie de argumentos. Centenas de vezes ao longo dos anos ouvi esta frase. Era considerado um sinal de insegurança e desvio do caminho saudável, que uma pessoa quando confrontada com um “deslize” se sentisse acossada e reagisse com uma bateria interminável de argumentos e desculpas, para justificar o seu “acto”. Mal alguém entrava por essa via, um dos presentes, quase sempre outro residente, lançava a frase – Bater-se é próprio do otário. E depois existiam duas saídas para o acossado, a primeira consistia em respirar fundo e admitir perante os outros, mas sobretudo perante ele, que de facto não estivera bem, ou continuar a tentar justificar-se.

Na altura, muitas das vezes, parecia-me excessivo o castigo emocional que se pretendia obrigar a pessoa a sentir ao admitir assim de forma tão frontal a falha, mas com o tempo fui reconhecendo que nessa atitude se conseguiam prevenir situações piores e em alguns casos até obrigava a uma meditação por parte dos visados que lhes trazia algum conforto na sua luta diária.

Desde que sai, em 1997, deixei de ouvir essa frase, tirando uma ou outra vez em que eu próprio a usei. Ficou assim encerrada dentro daquele espaço, como se fora dele não fizesse muito sentido a sua utilização, ou como se fosse necessário um código comum para ser entendida numa conversa exterior ao ambiente terapêutico. pelo que apenas me resta usá-la comigo sempre que tenho a lucidez de me aperceber que me estou a bater que nem um otário.

Com o crescimento das horas em frente ao computador e consequente expansão dos fenómenos das redes sociais, o cidadão tem hoje à sua disposição uma enorme quantidade de informação, proveniente de vários cantos do globo, desde a opinião do estudante de economia ao padre, passando pelas organizações ambientais e de defesa dos animais, até um infindável número de grupos e sub-grupos, todos eles veiculando informação, não raras vezes contraditórias, e em alguns casos anulando os seus efeitos graças ao choque de forças opostas em doses iguais de intensidade.

Acontece que dou por mim a pensar qual das fontes será de facto credível, de entre os sites que visito regularmente, normalmente ligados ao cinema, música, literatura, futebol, surf e politica, encontro por vezes fenómenos estranhos de mimetismo, e nalguns casos uma única fonte (ás vezes quase desconhecida) leva dezenas de sites a citá-la e a avançar com opiniões sobre a sua notícia, até agora ainda não encontrei desmentidos, mas noto que é praticamente desnecessário ler sobre determinado assunto em dois sites diferentes, pois ambos o abordam da mesma forma.

Nas redes sociais acontece algo ainda mais complicado, espalham-se rapidamente rumores que rapidamente passam a noticia e por vezes são completamente inventados.

Ora se a grande vantagem da internet é colocar à nossa disposição informação e pontos de vista diferentes, o mimetismo estraga essa vantagem, e se a credibilidade também for questionada devido ao crescente aumento de “boatos” nas redes sociais, ficamos com a nossa tarefa bem mais dificultada, teremos que ir mais longe nas nossas pesquisas e verificar a veracidade de qualquer notícia antes de a espalharmos pelas redes sociais (eu já caí nesse erro e fui um dos que ajudou a enterrar o Jon Bon Jovi).

Continua, no entanto, a ser uma das invenções mais revolucionárias que a nossa espécie criou, e por mais “monstros” que se criem em torno dela, será sempre uma janela para o mundo que dantes não existia e que agora é difícil imaginar viver sem ela. Portanto é preferível ter de navegar por ela com mais trabalho e cuidado nas nossas buscas do que sujeitá-la a qualquer tipo de regra que limite a liberdade que ela permite.

Entre as suas rotinas existia uma da qual Manuel jamais abdicaria. Todas as tardes, por volta da hora em que o sol se preparava para esconder os seus raios atrás das árvores do parque, os seus vizinhos da frente sentavam-se na varanda, primeiro aparecia o homem, alto e grisalho com um corpo bastante desenvolto para os sessenta anos de idade que carregava, um minuto depois aparecia a mulher, loira cerca de vinte anos mais nova, bonita e elegante, carregando na mão duas cervejas, entregando-lhe uma e sentando-se numa das duas cadeiras da varanda, só então o homem se sentava, num gesto que denunciava mais companheirismo que cavalheirismo. Durante cerca de quinze minutos eles ali ficavam a olhar alternadamente para o pôr do sol e um para o outro, era raro trocarem alguma palavra, e nunca, mesmo nunca se levantavam. Era um momento ritualizado por eles, com anos de prática e sem alterações. No inverno ou nos dias de chuva eles cumpriam a rotina como se nada os pudesse impedir daqueles momentos de comunhão com o planeta e com eles próprios.

Para Manuel, sem que ele se apercebesse este tornou-se um momento especial, de tal forma que abdicava de qualquer compromisso àquela hora, e quando, por motivos profissionais, tinha de se ausentar ou chegava atrasado, o seu dia perdia parte importante do interesse. Houve uma altura em que a sua observação do casal era tímida, tinha medo que reparassem nele e que de alguma forma isso pudesse estragar toda a aura em volta do momento, com o tempo foi perdendo a timidez e, nos últimos meses, já tinha colocado uma cadeira para ele na sua varanda e comprava packs de cerveja da mesma marca para poder beber durante aqueles minutos no fim da tarde. Começou por ser mais rápido que eles a beber a cerveja, depois com o decorrer dos dias o ritmo ajustou-se a agora terminavam os três ao mesmo tempo. Manuel nunca olhava para o pôr do sol, apenas para o casal, e o casal apenas olhava para o pôr do sol e um para o outro, nunca para Manuel.

Sempre que algum amigo visitava Manuel ele despachava-o antes do pôr do sol chegar ou então, o que ele preferia, marcava as suas visitas para depois dessa hora, assim não tinha que ser malcriado e correr com eles durante os minutos da sua cerveja na varanda. Ao olhar para aquele casal, Manuel pensava no que teria levado duas pessoas de gerações diferentes a encontrarem aquela harmonia. Como é que se conseguiria?

Com o tempo Manuel foi conseguindo perceber os olhares trocados pelo casal e acreditava ter decifrado cada expressão e cada sentimento exposto nesses olhares. Percebeu que a mulher amava o homem de uma forma mais intensa do que alguma das suas namoradas alguma vez o amou. Sentiu que eram livres, não existia nenhuma obrigação que qualquer um deles tivesse de cumprir perante o outro, estavam ali um para o outro, mas também estavam por si. O homem e a mulher sentiam-se gratos por se terem um ao outro e por poderem estar assim com alguém. Todas as tardes eram pois uma celebração daquele encontro feliz de duas almas.

Manuel, encarava a vida com mais alegria, todos os seus movimentos e pensamentos estavam saciados pela serenidade que bebia todas as tardes. Uma vez durante um almoço, num restaurante de comida italiana, não conseguiu deixar de olhar durante vários minutos  para uma rapariga que almoçava sozinha duas mesas em frente dele. Houve algo no olhar dela que lhe fez lembrar o olhar da sua vizinha da frente. Levantou-se e foi ter com ela, convidou-a para visitar a sua casa naquela tarde, um pouco antes do pôr do sol, escreveu a sua morada num guardanapo e deu-lhe, ela aceitou sem dizer palavra.

Nessa tarde, enquanto esperava pela hora certa verificou que tinha pelo menos duas cervejas. A hora chegou mas a rapariga não, pegou numa cerveja, e com algum desapontamento a pesar-lhe nos ombros dirigiu-se para a sua cadeira na varanda. Pouco depois apareceu o homem, um minuto depois a mulher, os dois sentaram-se e começaram a beber as suas cervejas, Manuel fez o mesmo. Quando o casal olhou pela primeira vez, naquela tarde, um para outro. Manuel compreendeu algo que imediatamente dissipou o desapontamento do seu encontro falhado. Provavelmente a rapariga do restaurante tem algo que não pode perder naquela hora, se fosse ela a convidá-lo para casa dela, àquela hora, ele teria faltado.

É um fardo que não gosto muito de carregar, mas acontece. Às vezes fico por minha conta e sou a minha companhia. Evito sempre que possível porque, normalmente, é frustrante passar muitas horas seguidas com a mesma pessoa.

Por mais interessante que a pessoa seja, até pode ser hilariante (o que não é o caso), pode ser inteligente, o que nem sempre é bom sinal, e pode até ser bom conversador, mas isso só implica uma disponibilidade enorme para ser ouvinte, o que nem sempre apetece. Por isso quando ouço o velho ditado do “mais vale só que mal acompanhado”, pergunto-me se o seu autor não seria demasiado narcisista.

Tudo bem que pode ajudar a pensar nalgumas coisas que acompanhados dificilmente pensaríamos, mas nem sempre isso é positivo. Também pode ajudar a relativizar algumas preocupações, mas por vezes ajuda a emaranhar o nó. Pode ser saudável se nos decidirmos a ler, ouvir música, ver filmes, escrever, passar a ferro e ir à casa de banho, mas para quase tudo o resto o mais saudável é ter companhia. Mesmo para pensar.

Uma coisa boa deste estado, por minha conta, é que me permito desbravar caminhos que por vezes são afastados na presença de outros. Uma coisa terrível é que quando percorro esses caminhos sinto sempre que me falta companhia.

Depois do álbum de Perfume Genius, descobri agora outra pérola discográfica, o novo disco dos School of Seven Bells, de seu nome “Ghostory”, e que se encontra disponível para audição, na íntegra, neste link (http://stereogum.com/963312/album-of-the-week-school-of-seven-bells-ghostory/top-stories/). Para o apresentar já existe um videoclip, também ele muito bom, que não podia escapar no fecho deste post.

 

Acredito que pode acontecer. Um dia, ao ouvirmos as notícias não reconhecemos a habitual procissão de relatórios mais ou menos enfadonhos sobre o peso do quotidiano, e deparamos com uma nova realidade. Poderia ser mais ou menos assim:

People started caring about what they eat
And people started smiling at everyone they meet
And people started looking for good instead of bad
Realize what they could lose in what they always had

Depois de arregalar os olhos e limpar os ouvidos, para afastar a possibilidade de nos encontrarmos a dormir. Ainda tínhamos tempo para ouvir:

People started growing, instead of being crushed
And people started slowing down instead of being rushed
And people started looking with very different eyes
And this information now comes as a surprise

Todo o nosso cepticismo se reuniria nesse momento, mudávamos de fonte, pois aquela poderia não ser credível, mas a realidade era esta:

Good morning here’s the news and all of it is good
Good evening here’s the news and all of it is good
And the weather’s good!

Era verdade, algo acontecera, não se tratava de um sonho, aliás era um sonho tornado realidade, algo pelo qual já tínhamos desistido de lutar, mas que agora nos aparecia concretizado:

People started calling those in power to account
And people started saying, “I want my voice to count”
And people started learning that they don’t need to fight
And they control their future and try to make it right

Telefonávamos aos amigos, e de todos vinha o mesmo caloroso feedback, algo mudou, alguma coisa fez a diferença, ninguém sabia qual tinha sido a gota de água que havia feito transbordar o copo, mas nesta altura já não interessava, o que importava guardar é que as coisas mudaram:

And people started feeling that better’s on the way
And people started feeling some peace and calm today
And people started liking the way that good life feels
And every precious moment becoming what is real

Todas as janelas se abriam, todos os jardins se enchiam e as crianças, sem saberem porquê, abraçavam os adultos e dedicavam-lhes pequenas rimas, tudo para que o momento fosse inesquecível.

Good morning here’s the news and all of it is good
Good evening here’s the news and all of it is good
And the weather’s good!

Não é uma música brilhante, no sentido criativo do termo, mas é uma música inspiradora. Chama-se “The News” e os seus autores são os Carbon/Silicon, projecto que junta Mick Jones (ex- The Clash) a Tony James (ex-Generation X, com Billy Idol e ex-Sigue Sigue Sputnik). Não é uma revolução, é antes a utopia em forma de canção (peço perdão pela rima manhosa, deixei-me levar).

O mundo raramente gira à volta de uma obra, e quando assim acontece damos-lhe o nome de obsessão. Existem momentos em que o nosso mundo parece completamente rendido a uma determinada evidência, contra a qual não conseguimos lutar ou resistir. São momentos de dedicação, pagos em deleite e prazer. Ainda há poucos dias aqui escrevia sobre um disco ao qual reconhecia toda a grandiosidade para o considerar obra-prima. Desde então a minha relação com ele tem aumentado de intensidade, sendo que ontem, não adormeci antes de o ouvir duas vezes na íntegra, e quando finalmente, me deitei era em torno das suas canções que a minha mente girava. Hoje acordei e antes de qualquer outra iniciativa comecei o dia com  a sua audição.

Como é que se pode ignorar à beleza desta escrita:

Hold my hand
I am afraid
Please pray for me
When I am away

Comfort the girl
Help her understand
No memory
No matter how sad
And no violence
No matter how bad
Can darken the heart
Or tear it apart

E se a escrita é assim, capaz de prender o mais distraído, então tentem escapar-lhe quando acompanhada pela voz.

 

Quando encontramos uma obra cuja beleza é tão assombrosa que não podemos imaginar como é que seria se não nos tivéssemos deparado com ela. Imaginar o “nosso” mundo desprovido dela é de um masoquismo tal, que não suportamos a ideia. Pelo que o melhor é acreditar que estávamos destinados a conhecê-la. Assim acontece com “Put your back n 2 it”, de Perfume Genius.

Músicas sentidas e doridas, acompanhadas por uma voz doce e sofrida, a de Mike Hadreas. Sem qualquer dúvida o melhor disco de 2012 que ouvi até agora, porventura um dos discos que fará parte dos meus melhores de sempre. Bonito como todas as coisas que nos fazem sentir os mais profundos desígnios da dor. Não são baladas, são hinos aos sentimentos.

Sublime.

 

 

Uma sensação de desassossego invadiu-me durante as últimas horas. Estou parado num terminal de aeroporto. Ao meu lado estão duas malas, os meus pertences para esta grande viagem. Para trás ficaram os beijos de despedida e os apertos de emoção. Agora restam-me os apertos de coração, a vontade de não resistir mais, de libertar todas as águas que a frágil barragem ainda sustém.

Viajar só, é como um regresso à infância, uma vontade de partilha que não encontra receptor. perante todas as oportunidades que a vida oferece, existem muitas que apenas fazem sentido em comunhão, e viajar é para mim uma delas.

Agora que me desloco para o avião, sei que todos os quilómetros que percorrer me aproximam de um destino familiar, mas simultaneamente afastam-me de tudo o que conheço, de todos os que gosto e de todas as rotinas que estabeleci. É como um crescimento forçado, implica a perda de qualquer coisa, por maior que seja o ganho que do outro lado me assoma.

Mas é preciso seguir, é necessário dar passos em frente.

Fora da minha janela, não está o mundo. Está apenas uma pequena parcela de terra, salpicada com pedaços de betão e uns carris de comboio que não se consegue perceber de onde surgem nem para onde vão. Tento chegar mais longe, tento perceber o que existe para lá do que a minha vista alcança, mas não consigo ver mais do que o descrito, se tentasse inclinar ainda mais o corpo para fora da janela, poderia cair.

As únicas alterações acontecem por cima da minha cabeça, no céu. É aí que se dão transformações de todo o tipo, umas bizarras, outras naturais, outras funcionais e por último, as belas. Por exemplo, os aviões são uma alteração funcional, as nuvens que se vestem de formas semelhantes aos objectos que estão no chão são bizarras, os pássaros e insectos voadores são alterações naturais, mas a neblina que todas as manhãs me impede de ver o que está lá fora, e me deixa a imaginar o que eu gostaria que estivesse, essa é a mais bela das transformações que a minha janela deixa ver.

Um dos críticos de cinema que leio com regularidade, João Lopes (muito por causa do blog “Sound & Vision”), tem encetado vai para alguns anos, uma luta escrita contra a banalização da critica dos filmes. Fundamentalmente, insurge-se contra a incapacidade as massivas operações de marketing dos grandes estúdios de Hollywood, que arrasam tudo à sua volta, também não poupa criticas, mais ou menos explicitas, a todos os divulgadores de cinema que não conseguem passar para lá desse efeito, sejam eles críticos pagos por esse serviço, jornalistas ou o mero internauta que gosta de partilhar a sua opinião sobre filmes e sobre o estado do cinema. Junta a estes factores uma critica ao papel que a televisão tem desempenhado como fomentadora de uma mediocridade que aliena espectadores e os torna menos exigentes e críticos.

Pois bem, partilho do seu ponto de vista, e assumo que por vezes João Lopes peca por falta nas suas criticas. Tudo bem, que ele se farta de explicar que os números do box office não são tudo,e que existe cinema para além deles (eu atrevo-me a acrescentar que “quase” só aí existe). Depois, as paixões e ódios que cada filme movimenta em termos dos seus espectadores só pode ser confrontada no campo dos argumentos, tudo o que seja insulto e clichés fazem um mau serviço e relegam os seus autores para o “lixo” mental, também aqui João Lopes está correcto, e isto não quer dizer que se tenha de gostar dos filmes que ele gosta, quer apenas significar que todos nós temos argumentos para gostar ou desgostar de um filme, mais ou menos consistentes, é o que cada um poderá verificar se os submeter a uma discussão lúcida e não insultuosa sobre os mesmos.

Isto tudo para dizer que agora mais do que nunca, em Portugal, é necessário acabar com a lógica do gosto porque gosto, como modelo tirano de defender um filme, se a esse gosto não for possível associar algum pensamento que o sustente então essa explicação não serve para sustentar nada e o seu eco deve ser nulo, logo televisões e outros meios de comunicação devem afastar-se desse registo. Se se gosta pela imagem, é bom que se saiba o que é que ela tem que nos mereça esse gosto, se é por causa da interpretação, ou da narrativa, ou da banda sonora, o mesmo deve ser aplicado, assim como a qualquer categoria do filme. Eu aceito que o espectador possa não saber porque gosta de determinado filme, mas não aceito que esse gostar não fundamentado seja bitola para algum critério.

O cinema, ao contrário das artes plásticas e da música dita erudita, tem-se permitido, pelo facto de existir uma indústria americana com muito peso, a ser banalizado na forma como é recebido, e isso não beneficia o seu potencial criador nem o espectador, que está cada vez mais refém de uma escolha limitada e de uma repetição de clichés e sequelas. Existe muito cinema, feito em todo o mundo (Estados Unidos incluído) que é feito para ser visto, e que não consegue o seu objectivo  porque a “máquina” o tem escondido, nem todo ele será bom, mas grande parte dele é, com certeza, melhor que os produtos requentados que têm chegado às salas.

Não coloquei aqui uma única referência especifica a um determinado filme, para que não possa tudo o que escrevi ser reduzido a uma leitura do género – “Já percebi de que tipo de filmes gostas!”. Mas posso responder que tenho um leque de filmes e cinematografias bem alargado no que diz respeito aos meus “favoritos”.

E já agora, é melhor ver filmes nas salas de cinema, pois é uma experiência, na maioria dos casos, mais próxima das condições que quem os fez queria que nós o usufruíssemos, para além de que nos obriga (se formos civilizados e desligarmos os telemóveis), a estar com a concentração ideal, algo que é difícil de conseguir na sala de casa.

Esperar, não é uma qualidade que eu possua em doses justas. Não tem nada a ver com o facto de não ter passado muitos momentos da minha vida a exercitar essa capacidade. O problema é que existe uma relação minha com a espera que, utilizando o adágio, normalmente se traduz em “desespera” e menos vezes em “alcança”.

Estou novamente numa situação de espera, onde aguardo um contacto que poderá definir o meu percurso durante os próximos tempos. E juntando a noção anterior à importância do momento, isso provoca em mim uma ansiedade, que eu diria normal, mas que não deixa de ser vivida com alguma angústia.

Não quero parecer piegas (apesar de ser um termo em voga), mas nestes tempos de espera, dá para tudo, desde os sonhos da concretização até aos pesadelos do “worst case scenario”. É difícil, ao fim de mais de quatro décadas de vida, assumir a importância que estes factores têm em mim, pois significa que ainda não sou capaz de aguardar com tranquilidade o desfecho de uma situação que me envolve, nem sei se alguma vez serei. Basta estar implicado na situação para me sentir como uma rapaz do liceu, à espera que a rapariga a quem dedicamos os nossos olhares repare em nós, e em que cada dia que passa sem um feedback nos torna mais vulneráveis.

Fazer outra vez, fazer de outra forma, fazer de novo a partir do velho. Nem sempre a vontade de homenagear, ou o simples prazer de recriar, dão origem a bons resultados. Muitas vezes ficam-se apenas pelas intenções, outras passa-se para lá delas mas o desvio é grande para se perceber o cunho original. Outras vezes apenas se veste uma nova roupa no mesmo corpo. Existem múltiplas soluções para quem quer arriscar uma cover version, os bares estão repletos de bandas a fazer disso o seu ganha-pão (a maioria das quais com resultados medíocres e uma interminável falta de imaginação). Mas de vez em quando surge uma nova versão de um velho tema que nos toca profundamente. Que nos lembra a beleza que o original continha e nos dá uma leitura também ela bela e diferente. Não é tão fácil quanto parece, a história da música popular tem muito mais fracassos do que vitórias nessa guerra. Eu, pessoalmente, raramente gosto mais de uma cover do que da versão original, no entanto, existem excepções, poucas, muito poucas. O tema que fecha este post é quase uma excepção, não chega verdadeiramente lá mas está muito próximo. A partir de um original de Neil Young, surge esta excelente versão dos The Chromatics.

Estes dias de frio mais intenso, em que as noites são de fazer tiritar os dentes, trouxeram-me à memória a minha única ida à neve. Aconteceu há 8 anos, e não sendo essa a primeira vez que estive em contacto com neve, nem a última, foi, no entanto, caso isolado no que a férias de neve diz respeito. Aconteceu numa semana de Dezembro, em que um grupo de 6 pessoas (eu, a Sara, a Olga, a Patrícia, o João e o Humberto), decidiu ir para Andorra, mais precisamente Pas de La Casa, gozar de 5 dias numa estância de Inverno e descer montanhas com uns adereços nos pés.

A viagem, feita em 2 carros, teve uma paragem em Alcalá de Henares, a uns 30 km de Madrid, para pernoitar num Ibis de estrada, mas isso não impediu os 3 homens do grupo de frequentar, durante essa noite, a “movida” da terra, que ostentava como glória o facto de ser a “cuna de Cervantes”. Foi bom e durou até às tantas da madrugada (4 ou 5???). Na manhã seguinte, depois do pequeno-almoço fizeram-se os 700 km restantes até Andorra. Já instalados no hotel, um rapaz português disse-me que o sitio indicado para comprar botas de snowboard era uma loja em Andorra La Vella. Nessa noite o grupo foi beber o café a um bar onde os portugueses da região se encontravam para ver os jogos da nossa liga, na SportTV. Deitámos-nos cedo e no outro dia a seguir ao pequeno-almoço o grupo dividiu-se em 2, divisão essa que se manteria até ao final da nossa estadia lá. Eu e a Sara fomos a Andorra La Vella e os outros 4 partiram para as descidas de montanha.

O lojista que me fora indicado, não apenas me vendeu as botas, como ainda vendeu mais um gorro, luvas XPTO e uns óculos para a Sara. Acrescentando a isso a informação do professor ideal para mim, o único que fora para praticar snowboard. Um marroquino, do qual já me esqueceu o nome mas que foi de facto uma dica bem boa. Depois das compras feitas regressámos a Pas de la Casa, onde fomos directamente marcar aulas. O meu professor apenas tinha uma hora livre, entre as 12h e as 13h. Aceitei e marquei 4 dias de aulas individuais com ele. A Sara marcou aulas colectivas para o mesmo horário. Nesse dia eu e a Sara decidimos não enfrentar ainda as montanhas e dedicamos a tarde a passear por Pas de La Casa e a beber umas “cañas” pelas esplanadas da terra. Quando as pistas fecharam os restantes 4 juntaram-se a nós no hotel, onde usufruímos da piscina, sauna e jacuzzi a que tínhamos direito. Nessa noite já só sai eu e o João.Os outros 4 foram para os quartos a seguir ao jantar.

Os dias seguintes pareceram cópias uns dos outros. Eu e a Sara a tomar o pequeno-almoço mais tarde, passeios e leituras e início das aulas ao meio-dia. Depois das aulas terminadas, almoço ligeiro, e de seguida tentávamos por em prática o que aprendêramos na aula. Quando as pistas fechavam reunia-se o grupo na piscina do hotel, depois um banho, seguido de jantar e aí o grupo fracturava-se outra vez, mas em moldes diferentes, os rapazes saiam para a noite (uma noite as raparigas acompanharam até perto da meia-noite),e as raparigas iam para os seus quartos descansar. Essas notes tiveram várias situações que ainda hoje os presentes recordam, mas das quais não me apetece agora escrever.

E assim se passaram os 5 dias e 5 noites em Andorra, o regresso foi sem paragem, uma vez que existia uma festa de aniversário em Lisboa, no dia seguinte à nossa partida de Pas de La Casa.

Foram dias agradáveis embora, nunca mais os tivesse repetido sei que se o fizesse agora existiria uma diferença que os tornaria bem melhores – a Íris. Pode ser que aconteça num destes Invernos próximos.

Existem momentos em que por felicidade nos cruzamos com algo que desconhecíamos e perante o qual ficamos abismados. Por vezes, essa estado surge associado a situações menos boas, acidentes ou tragédias pessoais, que nos paralisam. Outras vezes são situações de deslumbre com a beleza. Hoje tive um desses momentos com a simples audição e visualização de um videoclip. Fiquei embriagado pela beleza da imagem e da música, não consegui resistir, como se um feitiço se tivesse apoderado dos meus sentidos e nada existisse no mundo para além daquela imagem e daquele som que o meu computador transmitia. Se tivesse de explicar o seu efeito sobre mim, diria que não existem palavras certas para o descrever mas a mais próxima talvez seja – íntimo.

No terceiro visionamento compreendi o quão complexo pode ser o simples, e quão bela é a simplicidade.

Isto não faria sentido algum se fosse aqui escrito sem a seu lado ser colocado o motivo de tamanho êxtase. Aqui fica ele.