Archive for the ‘Olhos – Videoclips’ Category

A tolerância é algo que, com o hábito e a rotina, se instala permitindo-nos resistir a algo que ao principio acreditamos ser muito insuportável,mas que com o tempo nos habituamos a suportar. A grande desvantagem da tolerância é que se adequa e possibilita o aumento da dose gradual sem que tenhamos consciência real do ponto a que chegamos. Portanto, o que de inicio poderia parecer bastante terrível pode, com o tempo, tornar-se na nossa zona de conforto.

Assim acontece muitas vezes e em relação a muitas coisas, demais até. Esta versatilidade, nem sempre funciona a nosso favor, ás vezes actua mais como nosso carrasco. Cria uma carapaça que torna tudo indolor e afastado do real, que nos impede de sentir e sofrer verdadeiramente. Pode até ser útil em determinados momentos para resistir ao choque inicial que certas situações provocam em nós, mas rapidamente temos que nos ver livres dessa protecção extra para poder viver o que temos que viver e seguir em frente.

Desabafo assim, por sentir estar sob o efeito dessa couraça que me protege e ao mesmo tempo me impede de sentir. Se gritar e chorar talvez destrua a capa protectora e talvez me aproxime do meus sentimentos.

Uma vez, quando era um jovem de apenas 16 anos, lembro-me de que ajudar o meu pai a cortar relva funcionou como protecção para um choque que queria evitar sentir. Agora, muitos anos depois já descobri mais formas de o fazer, ao mesmo tempo que a minha tolerância aos choques se tornou mais resistente. Pelo menos até ao momento em que o dique desabar.

 

Voltando ao pensamento de Cornelius Castoriadis, eis uma elaboração dele a propósito da predominância masculina na nossa sociedade:

As inovações deste texto (refere-se a “Algumas consequências psicológicas da diferença anatómica entre sexos” de Freud) consistem, primeiramente, no reconhecimento do papel da mulher como primeiro objecto do amor libidinal para as crianças de ambos os sexos e, em segundo lugar, na posição central que é dada à descoberta que elas fazem em como a rapariguinha está “castrada” (sic), do consequente desprezo de que esta pode ser alvo por parte do rapazinho e de si mesma e do irradicável desejo do pénis que a dominará de ora em diante. procurar fazer destes factos psicológicos o fundamento da instituição patriarcal é contudo, ainda neste caso, uma petição de principio. Que aos olhos das crianças o pénis ou o falo (e não, por exemplo, o ventre de uma mulher grávida) se encontre revestido deste valor fundamental, isso já pressupõe a valorização ambiental (social) da masculinidade. O papel essencial do pai na maturação psico-social da criança é ainda menos susceptível de fornecer uma explicação para o patriarcado. A característica decisiva deste é a concentração, numa só pessoa, de quatro papeis: genitor biológico, objecto de desejo da mãe, ao romper o estado fusional que tende a instaurar-se entre esta e a criança (independentemente do seu sexo), modelo de identificação para os rapazes e de objecto sexual valorizado para as raparigas e, finalmente e sobretudo, instância de poder e representante da lei. Pode argumentar-se que esta concentração é “económica” (mas não deveríamos desdenhar os seus custos), mas não se pode dizer que seja inevitável. Em todo o caso, não pode existir nenhuma dúvida sobre a inclinação patriarcal do próprio Freud, expressa no seu juízo de que as mulheres seriam muito menos capazes de sublimar que os homens, no mito do Totem e Tabu, no qual as mães e as irmãs não desempenham qualquer papel ou ainda na maneira como considera a androcracia divina ao pensá-la, sobretudo no monoteísmo como algo de evidente.

Algo construído e orientado por Freud, levou a que a manutenção do status quo patriarcal seja pouco questionada, ora o que Castoriadis propõe é, exactamente, que se coloquem algumas questões sobre essa prevalência masculina na organização da sociedade, algo que, fora da esfera dos estudo feministas, tem sido descurado, inclusive pela própria ciência. Como programa para um futuro onde o equilíbrio (não a igualdade, porque os sexos não são iguais) entre sexos ocorra, é necessário começar por colocar em causa algumas teoria, que mesmo elaboradas “com a melhor boa vontade”, atrasam o caminho em direcção a esse equilíbrio.

Ontem dei por mim a assistir a uma daquelas entrevistas de fim de semana, conduzida pelo mais recente expoente da televisão portuguesa na arte do fingimento emocional que apela à lágrima fácil (não me lembro do nome do entrevistador, mas sei que ele é bastante conhecido). O entrevistado era o David Fonseca e por isso assisti à entrevista.O David foi meu colega de turma na escola de cinema, e fez parte da minha vida durante aqueles 3 anos que por lá passei. Hoje raramente nos vemos, embora quando isso aconteça exista vontade de por a conversa em dia.

Durante a entrevista o David disse que mantinha os pés na terra e que o sucesso não o tinha mudado porque a maioria dos seus amigos não gostava dos Silence 4. Fiquei a pensar nisso depois da entrevista terminar, e dei por mim a concordar parcialmente com ele. É verdade que não morro de amores pela música que os Silence 4, ou mesmo o David a solo, produziram, mas não sou capaz de dizer que não gosto. É uma ligação afectiva às suas criações que me impede de o fazer, é certo, mas é mais do que isso. Do que conheci do David, os seus gostos musicais, a sua paixão pela fotografia e muitas outras coisas mais que me levam a saber do potencial encerrado dentro dele. Digo encerrado porque acho que ainda não foi exposto, mas sei que o será.

Na altura em que o David “abrir o seu livro” todos iremos perceber que está ali. Não parou de fazer as suas aproximações, ora mais contido, ora mais liberto, com mais ou menos produção, umas vezes mais vestido de adereços outras mais despido, mas sempre em busca do que será, na essência, a música dele.

Presunção minha em querer saber qual é a verdadeira música de David Fonseca, pode ser, até aceito! Mas é uma crença pessoal que mantenho desde a primeira vez que o vi a tocar ao vivo, em 1997. Existe mais David do que este que nos foi mostrado até agora, existe um David que pode tocar mais fundo nas nossas emoções, acredito nisso de uma forma que nem o próprio será capaz de me contrariar.

Antes de ter percebido de que forma iria conseguir preparar uma refeição para dez pessoas, demorou-se a debater consigo próprio sobre as posições que cada um ocuparia na mesa. Se sentasse a Sofia ao seu lado, qualquer olhar que lhe dedicasse iria ser percebido pelos outros. Se a colocasse à sua frente ainda mais denunciado seria o seu acto, porquê ela em frente do anfitrião, para além de que ficaria no outro extremo da mesa, o que tornaria difícil participar com ela naquelas sub conversas que surgem sempre nestes jantares com muitos participantes. E se decidisse sortear lugares, cada um dos comensais escolheria retiraria de um saco um papel com um número de 1 a 10, que corresponderia aos números previamente numerados nas cadeiras, só que assim tudo dependeria da sorte, e a Sofia poderia voltar a calhar longe dele. Não existia solução perfeita, se optasse por  ficar à cabeceira como bom anfitrião e permitisse aos seus convidados escolherem os lugares onde se queriam sentar, assim poderia perceber se a Sofia queria ficar perto dele, esta solução só tinha um problema, a timidez dela poderia fazer com que os outros escolhessem antes e ela acabaria com o lugar que restasse, e esse nunca seria perto de si, pois a Madalena, o Tiago e a Teresa iriam querer ficar perto dele para poderem falar à vontade sobre o novo filme que viram ou o novo disco que ouviram. Outra possibilidade era alternar homens e mulheres, tendo em conta que existiam dois casais formados poderia empurrar esses quatro lugares para o lado oposto da mesa, mas mesmo assim teria a Madalena, o Tiago e a Teresa a quererem ficar perto dele e a arranjarem forma de mantendo a alternância conseguirem os seus intentos. Desistiu. Já estava na hora de começar a preparar o jantar.

Estou a mentir menos. Consegui viver grande parte da minha vida com o armário cheio de esqueletos criados por mim, e pela minha dificuldade em ser mais “verdadeiro”, a desculpa é que tinha medo da verdade. Desde 2005 (sim. sei a data!), que  a atitude perante a vida, no que a isso diz respeito, mudou. Os esqueletos foram expostos, e mesmo não desaparecendo (alguns irão permanecer para sempre), passei a ter com eles uma relação mais feliz, menos assustadora. Não foi o assumir de uma homossexualidade (podia ser, mas não é o caso), não foi o contacto directo com a morte (ainda não passei, eu próprio, por aí), nem sequer foi uma mudança radical na vida quotidiana. Mas foi experiência importante o suficiente para me deixar descobrir que já não necessitava de mentir ou ocultar. Claro que acredito num dos slogans do Dr. House – “Everybody lies”, e cálculo que até a Madre Teresa tenha mentido. Mas a minha relação com a mentira mudou, deixou de ser tão relevante, embora admita que já menti depois de 2005, e de certeza que vou mentir no futuro.

Depois veio a paternidade o que só reforçou esse novo estado de espírito. E com ele a descoberta de que é muito mais fácil viver sem o peso de uma mentira. Poder ir à luta sem receios de que as falhas que ocultava pudessem ser desmascaradas. Não significa que me estou nas tintas para elas, apenas sinto que já estão expostas que já as assumo e por isso já me fazem muito menos mossa. Eu que até me considero um bom rapaz (a sério que considero!), fui capaz de mentir, enganar, roubar (em lojas, se é que isso faz diferença), experimentar coisas que para além de ilegais eram arriscadas, experimentar outras que não sendo ilegais não deixaram de ser enormes riscos, e viver como se tudo isso fizesse parte de um percurso normal.

Agora, tenho um bom depósito de explicações mais ou menos complicadas para fornecer à minha filha sempre que ela as pedir e eu sentir que ela as deve receber. Mas tenho também uma consciência (é verdade, quem diria!), de que sou melhor do que já fui. Não quero aqui deixar uma imagem de renascido, porque seria mentira, basicamente sou a mesma pessoa que sempre fui, continuo a gostar de coisas que gostava em 1980, 1990 ou 2000, continua a saber bem fazer determinados programas, e ainda mantenho o enorme gosto de estar com os meus amigos (que conseguiram aguentar o bom rapaz durante muitos anos, mesmo reconhecendo-lhe as idiossincrasias). Mas algo mudou e eu sei que essa mudança me fez bem.

Não faço apologia da verdade doa a quem doer, porque essa história da dor é sempre mais fácil de infligir aos outros do que nós acreditamos, por isso tenho algumas cautelas. Até porque também acredito que a frontalidade é muitas vezes uma boa desculpa para ocultar traços sádicos. Aí, nesse campo ainda mantenho algumas dificuldades, reconheço que se deve ser honesto, mas retiro alguma credibilidade à frontalidade nua e crua. É provavelmente um mecanismo de defesa (protecção mesmo) que ainda retenho. Talvez com o tempo possa desenvolver outro tipo de atitude, mas para já continuo a ter pouca afeição por pessoas que usam como lema pessoal a frase – “Eu sou muito frontal”. Principalmente aqueles que despejam essa informação sem que ninguém nem nada no contexto a exigisse. A imagem que tenho é que são pessoas que ao dizer isso estão a puxar a culatra atrás, e ficam logo prontas a disparar.

Pronto, minto menos. É um facto. E não tenho mais nada (agora), para escrever sobre isso. Acabo com a revisitação dos anos 60, que há quem defenda terem sido anos de inocência e de defesa da verdade. Os The Byrds com “Your Lies” e muitos rapazes e raparigas a dançar, indiferentes a tudo isto.

Tive muitos sonhos (projecções) sobre o meu futuro, quase todos dedicados a situações pontuais que queria viver,experiências que queria ter e emoções que queria sentir. Nem tudo foi realizado, até agora, mas uma boa parte cumpriu-se com maiores ou menores desvios em relação à forma original inscrita nos meus desejos.

Mas houve projecções que estranhamente, ou talvez não, nunca tive. Por exemplo nunca dei por mim a projectar com que tipo de mulher iria viver, que tipo de profissão iria ter ou que tipo de carro iria conduzir. Em certos aspectos sempre foi a realidade que impôs a sua verdade e nunca tiveram que combater com uma projecção idealizada na minha mente.

Uma única projecção foi significativamente inferior à realidade, refiro-me ao facto de ser pai. Desde cedo que fantasiei sobre isso e claro que muitas imagens me ocorreram, as brincadeiras que iria fazer, as conversas que iria ter e as emoções que iria partilhar. Tudo isso foram no entanto imagens inferiores àquela com que a vida me presenteou. Hoje posso dizer, mesmo correndo o risco de parecer mais um pai babado a falar da sua descendência, que a minha filha é muito melhor que qualquer fantasia que tive sobre filhos. É assim, porque tem uma personalidade forte, mesmo quando faz de mim um pai mandado, reconheço que é de forma ostensiva, como se não precisasse de ocultar do pai os seus verdadeiros motivos, o que me deixa feliz. Zanga-se, amua, faz birras e chora, mas tudo isso de uma forma que é tão à flor da pele que só me apetece cobri-la de beijos a abraços, ou o chamado “miminho” bom, nome que damos aos segundos em que nos abraçamos com ternura.

O resto das projecções, que ainda vou fazendo, passaram a ter outro valor desde a chegada da Íris e muito do que a minha cabeça imagina para a frente envolve-a. Existe uma parte de mim que pensa no meu futuro, com a profissão e carreira a necessitarem de constantes ajustes, algumas fantasias deram lugar a outras mais adequadas à actualidade, mas  no que a ela diz respeito existe muita fantasia ainda por concretizar, muita experiência para partilhar, que resistirá mesmo no dia em que ela adolescente me aparecer com um puto de mão dada pela frente.

Por falar em projecções, arrisco a fazer mais uma para fechar este post. Prevejo que um dos discos deste ano será “Mixed Emotions” o álbum de estreia dos Tanlines. Aqui fica o videoclip de “Brothers”, tema de apresentação do disco.

Pensando bem sobre as minhas decisões ao longo da vida, noto que uma boa parte delas foram tomadas tendo a intuição como principal aliado. Desde muito cedo que passei a confiar na intuição mais do que deveria. Primeiro foram os estudos, que até certa altura eram tão fáceis que não necessitava de me aplicar para conseguir as notas que deixavam os meus pais babados, depois com o correr dos anos, uma de duas coisas acontecia, ou a matéria ensinada era para mim de compreensão imediata e tinha graças a isso uma boa nota, ou então não era e marrava na véspera dos testes deixando grande parte das respostas para serem escritas com base na intuição. Resultado, as notas deixaram de agradar a quem quer que fosse (isto a partir do 10º ano).

Com a excepção dos filmes, das músicas e dos livros, onde me aplicava a sério para tentar saber mais e aprofundar o meu conhecimento, o que nem eu admitia ser esforço, pois tinha como motor o prazer, tudo o mais era deixado ao sabor do vento ou da intuição. Lia num jornal sobre um curso de formação subsidiado pelo fundo social europeu e não ligava, no dia seguinte lia sobre outro e dedicava-lhe toda a atenção necessária para me levar a frequentá-lo.  A intuição decidia.

E pela vida fora fui seguindo neste caminho pouco claro e desorganizado, onde a intuição pesou sempre muito. Por vezes as coisas correram bem e os meus amigos diziam que tinha sorte, e não se enganavam pois em muitos casos foi isso apenas que esteve na base de coisas boas – a sorte. Outras vezes as coisas correram menos bem e eu dizia que melhores dias viriam. Sempre confiando na minha intuição que teimava em me assegurar que o melhor estava para vir.

Como já não sou capaz de ignorar os factos e esconder a cabeça debaixo da terra, decidi que a intuição deve ter menos importância que a dedicação e a entrega, por isso tento recuperar o poder da decisão para mim de uma forma mais pragmática do que antes, evitando que a intuição se antecipe e decida sem mais. Os resultados ainda não são visíveis, pois as decisões tomadas sob efeito de reflexão demoram algum tempo a produzir resultados, pelo que aguardo pelos próximos tempos para fazer balanços.

Isto não quer dizer que tenha abdicado da intuição, ela está presente e eu tenho-a em conta, só que já não é a única a ser tida em conta (com a possível excepção dos jogos de Poker, onde para arreliação de alguns amigos ela ainda pesa bastante).

Se eu fosse mais esperto talvez tivesse enveredado por este caminho mais cedo, mas teria acabado com algumas ilusões antes do tempo e teria terminado a adolescência com a idade devida, assim prolonguei-a no tempo e não posso dizer que  não me diverti e que não cometi as minhas ousadias. Deram alegrias e tristezas, mas permitiram-me chegar a este ponto em que sei exactamente o que vivi e sei que muito pouco ficou de fora. Daqui para a frente é uma nova forma de caminhar, a ver se acerto o passo e reduzo a velocidade. Se compenso com dedicação a redução da euforia e se experimento a sobriedade com o prazer de quem se pode inebriar com ela.

Uma das bandas que mais gosto, e ainda pouco usada neste blog. Os XTC encerram este post com o adequado “Senses working overtime”

Vulgarizado pelos acidentes noticiosos, a sua queda passou despercebida. Esquecida e ignorada foi como se apenas ele a tivesse vivido. Nunca as dores foram tantas, o seu corpo pedia-lhe os maiores cuidados, numa luta desgastante todo ele corria para acalmar quantas dores conseguisse, nunca sendo capaz de cuidar de todas. Desistiu e deixou-se ficar quieto, esperando que o tempo aliviasse e resolvesse todas as fracturas.

Deitado olhava para as coisas como se estas fossem capazes de o entender e de perceber o seu sofrimento, escondido no seu silêncio. Um copo adivinhava-lhe a tristeza, uma lâmpada apontava-lhe a angústia e todos os objectos lhe reconheciam o cansaço. Em vez de os odiar pela capacidade para o desmascarar, ele tinha-lhes afecto. Funcionavam como companheiros desta viagem, sempre dispostos a partilhar mais uma paisagem, mesmo sabendo que essa paisagem era sempre o seu rosto. O relógio, o mais irrequieto de todos os objectos, ia a vinha enquanto o seu olhar se demorava na maçaneta da porta. Queria que ela se mexesse, que os sinais de vida do exterior se materializassem naquela maçaneta. O seu olhar raramente se desviou dela até que exausto, deixou de acreditar na possibilidade dela alguma vez se mover e fechou os olhos. Mesmo assim, de olhos fechados, sabia que os objectos da sala o olhavam. Inclinou a cabeça para trás e através da janela via a montanha ao fundo, coberta de neve e as nuvens que passavam sobre ela.

A vulnerabilidade é uma sensação que me visita ocasionalmente. Sem marcar hora, nem sequer avisar que veio para estar uma hora, uma tarde ou um dia inteiro, ela aparece. Normalmente recebo-a com algum desagrado, procuro dar-lhe pouca atenção, na esperança de que não se sentindo bem vinda acabe por tomar a sensata decisão de me abandonar. Mas se existe uma coisa que eu já percebi sobre ela, é que não é muito atenta a esses sinais e insinua a sua presença independentemente da forma como é recebida (acho que ela tem um perfil sádico).

Depois de vários encontros e outras tantas tentativas das quais consegui escapar, ou porque fingi não estar e ela acreditou e foi embora, ou porque entretanto chegaram outras visitas e ela, que prefere visitar-me a solo, desaparece. Arranjei forma de a ter mais ou menos controlada, primeiro certo que estou de que as razões das suas visitas são invariavelmente as mesmas desde há anos, reuni uma mão cheia de argumentos que a deixam um pouco desorientada, depois quando ela menos espera, desfiro o ataque final e admito que ela não deixa deter razão, concedo-lhe esse prazer, que é o suficiente para satisfazer a sua necessidade sádica e a partir daí ela fica mais dócil e por vezes até inverte os papeis e acaba a consolar-me.

A minha relação com a vulnerabilidade é nesta altura fruto de vários anos de experiência e muitos anos de resistência, pelo que olhando para trás não posso deixar de considerar que existe entre nós um profundo conhecimento mútuo que nos permite deixar de inventar preliminares e conversas de cortesia e passar directamente aos assunto que nos ligam. Soubesse eu tratar desta forma outras visitas menos desejadas e poderia dizer que já conquistara na vida uma sabedoria relevante, mas ainda acredito que essa altura possa chegar. Por hora vou tentando decifrar os sinais que me aparecem sob todas as formas para perceber melhor o tipo de mundo em que vivo e o tipo de pessoa que eu sou nesse mundo.

Pode parecer algo vaidoso e sem grande significado, explicar a minha relação com a vulnerabilidade, mas eu sei, e ela também sabe que é dessa tentativa de explicação que eu necessito para a conhecer melhor e para lidar com ela de uma forma mais equilibrada, impedindo-a assim de ser ela a tomar sempre a posição do master e eu do obediente servant.

A grande vantagem de uma relação paritária com a vulnerabilidade é que deixo de me sentir ameaçado por ela e passo a reconhecer nela uma possível aliada. O que não quer dizer que não fique sempre um bocado apreensivo quando ela aparece.

emotion and landscapes – state of emergency – how beautiful to be

Danada seja a construção do novo bairro, mesmo em cima do único local onde podia passear o cão. E os novos vizinhos serão com certeza uns novos ricos cheios de maus-hábitos e pouca educação, quem é que quer afinal pagar uma fortuna por apartamentos onde cada parede é mais fina que uma fatia de fiambre e mais insonorizada que um pedaço de papel. Ali vão viver mais de 60 famílias, num conjunto de quatro prédios, cada um com quatro andares, e todos sem graça alguma. Modernos diz a publicidade que eles colocaram na minha caixa de correio. O que será que eles querem dizer com “modernos”, referem-se à falta de privacidade, ao amontoado de partilhas humanas forçadas, ou diz respeito apenas ao facto de cada prédio ter um sistema sonoro nas áreas comuns com música horrível a debitar a toda a hora que alguém entra ou sai de um daqueles apartamentos, se calhar não é isso, se calhar referem-se à piscina comum que em dias de grande calor pode ter que albergar mais de 200 pessoas. Quem terá associado esse facto à modernidade. Quem terá sido o grunho que optou por fazer da desactivação da privacidade o sinónimo de modernidade. Deve ter sido alguém com muita sede de dinheiro e pouco respeito pelos outros. Embora, os outros que decidirem morar ali pouco se dêem ao respeito, estão bem uns para os outros, quem constrói e quem compra é tudo fruto da mesma anestesia mental.

Agora vou ter de encontrar um local novo para ir passear o Cassius, talvez para os lados da auto-estrada, ficou por lá um terreiro que servia de estaleiro durante a construção e deve ser o único sitio aqui perto onde um cão possa correr em liberdade, isto se for um cão obediente e responsável como o Cassius, porque se for um desses que hoje se encontra muito sem qualquer tino para descobrir onde está é capaz de se enfiar encosta acima em direcção da auto-estrada e perder-se por ai até um carro o encontrar de frente.

Os homens que decidem o planeamento nunca pensaram nisso, nem nisso nem nos mortos, o cemitério está lotado mas eles continuam a fazer lá enterros, agora devem estar a convencer as famílias todas a cremar os seus entes falecidos, com a desculpa de que é mais higiénico os sacanas poupam espaço, e dentro de uns anos o que irão inventar? Talvez destruir o terreiro que resta e aumentar para aí o cemitério. E depois? para onde vão os cães passear. Para onde?

As imagens podem ser banais ou fascinantes, podem deixar-nos sem palavras ou entediados, quando são boas, não são inócuas, quando valem a pena são elas que nos conduzem a mundos novos, através delas a nossa mente pode viver experiências fundamentais para o nosso crescimento e auto-conhecimento, as emoções podem variar entre o prazer e a angústia, mas se as imagens forem boas o resultado final dessas será sempre positivo.

Existem filmes, documentários, videoclips e até spots publicitários que conseguem alcançar essa maravilha que é por o nosso cérebro a reflectir ao mesmo tempo que o nosso coração está a sentir.

Aqui coloco o mais recente conjunto de imagens que me deixou nesse estado. É um pequeno videoclip e uma enorme pérola. Nele todos os factores se conjugaram, a música, as vozes, a letra e as imagens.

Primeiro um excerto da letra:

“You never worship, you never worship your life. You never worship, you never worship your life. All the while you’re standing still you’re always in the past. You won’t let the good times in, if you do, you make sure they won’t last. Can’t you see the lights they’re shining to lead you back again? My heartbeats can be a silver lining just listen well to them.”

E agora o vídeo:

Um post com este titulo é sempre arriscado nos tempos que correm, por via de uma conotação doente que nos tem vindo a ser colada ao cérebro. Só que esta é uma verdade pessoal à qual não consigo escapar. Estar com crianças e sentir a sua energia sempre foi uma das minhas alegrias, e ao contrário do senso comum mal instalado de que as crianças nos fazem velhos, eu sei que a mim me fazem novo, não só porque alimentam o Peter Pan que existe em mim, mas sobretudo porque não conheço nada mais rejuvenescedor do que o sorriso de uma criança.

Comecei cedo a tomar consciência desse efeito benigno que as crianças tinham em mim, talvez antes mesmo do que eu aqui me vou lembrar. Primeiro foram os meus primos João e Pedro, agora a baterem nas 3 décadas de idade, depois os meus outros primos Bruno e Marco (que me lembro de ter levado ao Aquaparque no fim de semana das terríveis ocorrências naquele espaço), depois surgiu o Tomé, este o primeiro do qual tenho consciência de ter estado perto a ver crescer, desde o nascimento até agora, e depois vieram os outros todos, os Lós (Mafalda, Toninho e Quico), a Joana Garrido, o Franças, e o Pedro todos amiguinhos do Tomé (e meus!), os meus sobrinhos cada um mais lindo que o outro numa roda viva de quatro seres (a Catarina, o Pedro, a Camila e o João), as Vinagres (Joana e Filipa), o Britinhas (que se chama Francisco e é filho do meu amigo Luís, ganhou esta alcunha porque o pai o embalava como se fosse uma britadeira quando ele tinha uns tenros dois meses), as Pinhos (Beatriz e Violeta), o Sázinho, a Raquel que nasceu no meu dia de anos, as Bacelares (Marta e Maria), a Serôdia (Martinha), as Mimosos (Sofia e Rita), os Venâncios (Nuno e Sara), a Maria Luís (que mal a vi mas gosto do que conheço), o Altenor Jr (que ainda só vi de fotografia e tem como verdadeiro nome Benjamim). E mais existem que a minha cabeça de alho chocho não se lembrou agora.

Claro que a criança que mais gosto tem o nome de Íris e graças a ela já existem mais crianças no meu mundo, as suas coleguinhas Leonor, Matilde, Isabel e as Bárbaras.

Mas este post ocorreu-me ao pensar que hoje chega aos 16 anos a Ritinha (irmã do Tomé), ela foi desde os dois meses de idade todos os anos à Mina de S. Domingos na época do meu aniversário, é uma miúda que vi crescer e que passou de bichinho do mato, agarrada ás saias da sua mãe para uma adolescente cheia de personalidade. Hoje chegou o dia em que passa a senhorinha, e a sua mãe já me confidenciou que se vestiu a rigor para ir para a escola – “estava tão linda a Rita hoje de manhã” disse-me a Ana ao telefone.

Parabéns Ritinha, desejo muitos e bons e quero que saibas que fazes parte deste enorme grupo de crianças que me ajudam a sentir novo. Beijos.

Tentei evitar o cliché do Billy Idol, mas o Neil Sedaka, Chuck Berry, Hillary Duff e demais mostraram-se piores alternativas, para além de que existe algo neste tema que eu gosto, deve ser por o ter conhecido perto dos meus 16.

Este fim de semana foi o primeiro em que a Íris se aventurou a andar de bicicleta, começou de forma um pouco frustrante na Sexta-feira ao final da tarde, em que os parafusos de uma das rodinhas se soltaram e ela pouco conseguiu andar, tendo aproveitado o sol para se por em tronco nu e descalça a correr pela areia.

No Sábado, já com os problemas resolvidos decidiu mostrar-me de que fibra é feita e levou-me a percorrer, sempre atrás dela, o paredão, entre a praia da Poça e a do Tamariz, ao chegar, resolveu cravar-me uns óculos de sol na loja que existe no túnel do Tamariz e seguiu viagem de regresso à Poça, aí fui eu que achando que ela tinha consumido algumas energias a presenteei com um gelado (Calippo cola, escolha dela).

Depois do gelado comido, voltou a sentar-se na bicicleta e lá fomos nós novamente ao Tamariz, as ondas batiam no paredão e uns salpico de água refrescavam a face em dois ou três pontos do percurso. Ao chegar ao Tamariz decidiu tentar subir e descer a rampa que dá acesso ao túnel e não descansou enquanto não conseguiu, depois regresso à Poça, onde se limitou a fazer vários percurso no largo da praia, subindo um pouco da rampa de acesso à marginal e descendo a mesma a velocidade considerável, para quem tinha começado nesse dia a andar de bicicleta a sério. Depois ainda ousou fazer várias vezes o túnel da Poça, porque é liso e lhe permite ganhar mais velocidade.

No Domingo, estava incapaz de a acompanhar e por isso o assistente de serviço foi a avó, que fez com ela mais duas vezes a visita ao Tamariz, e ainda teve direito a ver a neta tentar um cavalinho apenas porque viu um rapaz a tentar fazer na sua bicicleta mesmo em frente dela. Mais um gelado e e um cachorro, alguns novos passeios pelo túnel da Poça e vários pequenos passeios em redor da esplanada, sempre acompanhados pela frase-  “Eu já volto”.

Não sei como é que ela viveu esta experiência, mas para mim, foi emocionante, não é apenas baba paternal é também a sensação de desenvolvimento do ser humano, das suas adaptações e das suas lutas para ultrapassar os obstáculos (sim, porque também teve direito no Sábado à sua primeira queda de bicicleta). Claro que ver de perto e sendo minha filha a emoção é maior.

A primeira vez que me confrontei com a passagem dos anos sobre a minha carcaça foi quando tomei consciência de que era mais velho que a grande maioria dos jogadores de futebol profissional, o que aconteceu na viragem do milénio. Agora esse fenómeno ocorre sempre que um grupo de putos com talento aparece no meu radar musical. É uma sensação paradoxal, se por um lado me regozijo com o facto de ainda ser capaz de estar atento ao que se vai fazendo de novo, por outro lado não consigo esconder de mim mesmo a diferença de idades que levo sobre esses miúdos.

A primeira banda que me deixou assim embaraçado foram os Arctic Monkeys, tão novinhos que eles eram em 2005, depois disso uma ou outra nova banda foi aparecendo que me fez sentir o mesmo e a mais recente são os The Front Bottoms, dois putos de Nova Jersey, que para além do jeito e do lado descomprometido com que se apresentam, mostram umas carinhas de recém saídos da puberdade que me faz uma certa aflição. Mas idades à parte, os rapazes deixam a certeza de que vale a pena ouvir a sua música e estar atento ao que irão fazer. Editaram no final de 2011 o seu terceiro disco (sim terceiro!), embora tenha sido o primeiro lançado por uma editora, os dois anteriores haviam sido lançados em edição feita por eles próprios. O videoclip de “Maps” (que encerra este post), é um excelente cartão de visita para a sua música, uma mistura de punk-dance-folk cheia de vitaminas e frescura. Para ajudar o próprio clip é muito bom, feito sem corantes nem conservantes, aproveitando a juventude dos rapazes e a batida da música para nos guiar por uma pequena viagem deles pelo seu território. A ouvir e ver.

Foi em 1979, aproveitando um concerto no pavilhão Dramático de Cascais que os The Stranglers decidiram gravar o videoclip para “Nuclear Device”, aquele que viria a ser o segundo single para o álbum “The Raven”. Tendo gostado muito da praia do Guincho, decidiram que era ali que iriam rodar as imagens para o seu Apocalipse pós-nuclear, as dunas e a vegetação ao redor da praia criavam o cenário perfeito para esses intentos.

Tendo em conta que é um produto pré-MTV, o resultado não se pode considerar desastroso, chegando a ter algum acerto na imagem e ritmo sem recorrer a alguns efeitos que nos anos seguintes viriam a estragar muitos videoclips.

Aqui fica ele.

Ontem soube que uma amiga minha está neste momento a passar por uma chatice que me deixa seriamente preocupado com o rumo que estamos a tomar enquanto sociedade.

Em traços largos, o problema da minha amiga resume-se ao seguinte: ela é uma pianista que graças a um casal de vizinhos está impedida de tocar piano em sua casa, impedida de ensaiar para os concertos ou de pura e simplesmente manter o treino. Possui um piano de quarto de cauda e vive num edifício de apartamentos novos, daqueles que não são muito acessíveis financeiramente e onde os vizinhos em causa são, pasme-se, não um casal de velhotes resmungões mas sim um jovem casal.

Depois de várias chatices, a minha amiga que nunca tocou depois das 20h, nem antes das 10h, resolveu reduzir os seus períodos ao piano, Depois manteve a tampa fechada e por último recorreu a cobertores que colocou em cima do piano. Mas nem assim, o casal insiste que o piano os incomoda. A minha amiga pediu-lhes depois que sugerissem horas em que ela pudesse tocar sem os incomodar, nada feito porque a vizinha (designer de interiores) trabalha em casa e por isso a todas as horas se sentiria incomodada.

Depois do Miguel Sousa Tavares a sugerir que as crianças que se comportam como crianças fossem impedidas de ir aos restaurantes, juntar histórias como esta, fico com a sensação de que evoluímos para uma espécie de sociedade asséptica e insonorizada onde só restará o silêncio das nossas solidões.

É preciso dar a este post o grito que ele merece por isso acabo com os UK Subs e “Emotional Blackmail”

O mundo não está na melhor forma e os seres que nele habitam também não (pelo menos a grande maioria dos humanos). Se isto serve de consolo a alguém com desejos de catástrofe, a mim não me serve de muito. Só que enquanto divago pelas noticias que fazem os dias correr, apercebo-me que nunca tive muito jeito para arauto da desgraça e que como tal sou destituído de qualquer sentido dramático, acabo sempre por parecer monótono a falar de coisas menos boas. Pelo que tenho apostado ao longo da minha vida em amplificar as coisas boas, sobretudo as coisas que gosto, aí sinto-me mais à vontade e com mais capacidade, embora possa melhorar na dose de entusiasmo que por vezes me leva a ver em todas as promessas, certezas.

Mas com a minha adesão às redes sociais dou por mim a mudar alguns hábitos (ou por isso ou então pela idade), a verdade é que por vezes sou levado a construir sobre mim um perfil de cidadão preocupado que se esforça por passar mensagens sobre as injustiças, crueldades e outros crimes, que embora me deixem espaço para alguma sensação de dever cumprido, nunca me fazem sentir satisfeito. Como se a denúncia da desgraça apenas servisse para reduzir e nunca para aumentar. É com as coisas boas que eu consigo esse efeito de engrandecimento, só com elas consigo elevar para lá da rotina. Será isto um sinal de eterno optimismo ou, como é hábito dizer-se actualmente, quererá antes significar uma tentativa de alheamento da realidade? Nos momentos mais positivos aposto na primeira hipótese, nos outros deixo-me cair para a segunda.

As histórias que conto à minha filha são inventadas e, não raras vezes, acontece faltarem-me  assuntos que no momento possa desenvolver e criar uma história nova para ela, por isso vou criando em círculos, inventando a partir da última que lhe contei e tentando desenvolver uma cronologia dos personagens que faça algum sentido para ela.

Inicialmente ela limitava-se a ouvir a história, sendo reduzidas as suas intervenções, agora, com o medo do fim das mesmas histórias ela vai colocando questões sobre as personagens e o porquê dos seus comportamentos para prolongar o tempo em que vivemos os dois nessa fantasia. A verdade é que com essas perguntas ela me ajuda a desenvolver mais e me ajuda também a perceber o entendimento que ela vai tendo dos personagens e situações vividas por eles, bem como deixa escapar o que lhe interessa mais.

Quando me imaginava pai, antes de o ser, fantasiava com a imagem do adulto sentado na beira da cama a ler-lhe um livro, hoje 6 anos passados após o nascimento da Íris essa imagem desapareceu sendo substituída pela do adulto que se procura desenvencilhar num mundo de fantasia que ele próprio criou para oferecer sob a forma de história à sua filha. Só que esse mundo não é tão distante da nossa realidade, diria mesmo que as minhas história vivem dum naturalismo acentuado, a como estão sempre em fase de construção passaram a ser co-criadas pela Íris.

Não me lembro dos meus primeiros 6 anos de vida, o tempo que vivi em Angola. Mas, imagino que deveria adorar histórias.

Existe um mundo paralelo ao nosso, em que os nossos sonhos e pesadelos se encontram em forma real, é um mundo cheio de heróis e vilões, não como este em que vivemos, em que tudo se esbate. Sempre que as definições aqui se tornam dúbias é só dar uma vista de olhos no outro mundo para perceber melhor em que pé estão as coisas.

O branco é pureza e o preto representa os sentimentos negativos, muita da iconografia dos westerns foi construída sob estes pilares, era mais fácil identificar numa só imagem de que lado estava cada um dos personagens. Um guia básico para os comportamentos humanos reduzido à questão crucial. És mau ou és bom?

Agora que o western está fora de moda, é mais difícil descobrir de que lado estão os personagens e de que forma se vão comportar. Agora o mundo já não necessita de heróis e vilões, de justiceiros e criminosos, precisa apenas de pessoas comuns que saibam de que lado estão. Mas não é fácil, porque para perceber isso temos de as conhecer, temos de nos conhecer, de verdadeiramente as sentir, de verdadeiramente nos sentirmos, e quando o fazemos não se revela a verdade, apenas a nossa escolha. Mas é para isso que deve existir o relacionamento humano, para que possamos decidir de que lado estão os que nos rodeiam, e de que lado estamos nós.

Can we get much higher? So high.

 

Estava à espera de quê? Afinal para que serviam todas as horas gastas a ensaiar este momento? Não houvera ela simulado mentalmente toda esta situação? E agora onde é que estavam as suas deixas? Escondida por trás de um copo com vinho, ela olhava para ele como se de um ser alienígena se tratasse, um daqueles seres que num só gesto são capazes de nos conduzir pelos caminhos que eles traçam e nos quais nós não conseguimos introduzir qualquer aspecto da nossa vontade. Uma espécie de hipnotismo interplanetário que a impedia de articular qualquer palavra. Assim esteve durante largos segundos, até que o reflexo do seu rosto no copo, quebrou o feitiço.

– Acho que podemos sim, podemos ver no que dá – disse ela finalmente.

Ele olhou para o copo na mão dela, como se tivesse compreendido que ali estava uma fórmula mágica capaz de prolongar o momento e sorriu para o copo. Depois pegou no seu copo e levou-o à boca bebendo num único trago todo o liquido que ele continha. Levantou-se de seguida e dirigiu-se para o outro lado da mesa, ficando em pé ao lado dela.

– Talvez não seja má ideia! Talvez possa até ser a única coisa certa a fazer – disse-lhe olhando para baixo na direcção do seu decote.

Ela voltou ao estado hipnótico e ficou imóvel, não sabia se contrariava os seus impulsos ou se eram estes que a mantinham naquela imobilidade. Nunca tinha vivido um momento assim. Sempre fora dominadora de todas as situações e essa era a sua imagem de marca – o controlo, a segurança com que previa todos os acontecimentos e se antecipava a eles. Mas agora tudo isso parecia pertencer a outra pessoa. Baixou o copo, e colocou-o na mesa, depois olhou para cima e percebeu o olhar dele fixado no seu. Esse foi o momento em que voltou a si e entrou de novo na realidade do momento.

– Ok. Qual é então o próximo passo? – perguntou-lhe com a segurança na voz que transmitia preparação para qualquer resposta dele.

Ele pegou-lhe na mão, que acabara de ficar livre do copo e ajudou-a a levantar da cadeira, assim que o rosto dela ficou em frente do seu, decidiram ambos, numa frequência telepática situada num canal só deles, que aquele era o momento e beijaram-se. Como num filme protagonizado por galãs e divas tudo em redor deles rodou, apenas eles se mantiveram no mesmo lugar enquanto o mundo girava em torno deles.

 

É uma experiência ver o filme “Shame” de Steve McQueen. Um filme que olha para o corpo e para intimidade humana com a desconcertante frieza de um diagnóstico.

Um filme onde não existe qualquer tipo de veneração da sexualidade ou sequer uma tentativa de olhar o corpo humano feminino ou masculino pela sua beleza ou graciosidade. “Shame” (“Vergonha” tradução literal em português) é um filme como poucos na sua capacidade para nos entregar as mais vivas e cruas emoções da solidão contemporânea nas cidades. Feito com a paciência de quem elabora uma filigrana, momento a momento, temos o tempo que necessitamos para entrar no mundo de Brandon (soberba interpretação de Michael Fassbender), e fazer com ele a viagem do despojamento e da entrega, não uma entrega no sentido de causa, antes uma entrega à ausência de qualquer tipo de causa. É o corpo que se entrega, já não pelo hedonismo das décadas anteriores, mas sim pela cedência ao vazio, é antes uma rendição ou uma desistência, nunca uma luta por qualquer objectivo.

A cidade de Nova Iorque como pano de fundo a esta alegoria da vida sem destino, é uma personagem activa no sentido em que só na cidade, na grande cidade, é possível este sentimento de perda, de indiferença na entrega da nossa intimidade.

Com tanta crueza é apesar de tudo um filme cheio de momentos bonitos, mesmo que essa beleza encarne na solidão dos olhares.

Poderia encerrar este elogio a “Shame” com um excerto do filme, ou mesmo o trailer, mas prefiro destacar um músico e as suas canções. Trata-se de Simone Felice (apesar do nome é um homem, e faz parte do colectivo Felice Brothers), que acaba de editar um álbum a solo, que será, quase de certeza, um dos melhores discos de 2012 para mim. De lá vem este tema “New York Times”, aqui também apresentado num videoclip sem aditivos.

 

“We find delight in the beauty and happiness of children that makes the heart too big for the body” Ralph Waldo Emerson
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A alegria existe. Tem um rosto. Sorridente, com olhos ora castanhos, ora verdes, um cabelo encaracolado, loiro, denso e forte. Tem uma energia inesgotável que quando decide repousar parece que foi o mundo que decidiu parar. Tem uma propensão para elevar todos os nossos sentidos, agarra-nos e leva-nos com ela num turbilhão eléctrico de sensações. A alegria dá-nos a mão sempre que nós pedimos, e sempre que o não fazemos ela toma a iniciativa. A minha alegria tem um nome – Íris.

Para terminar uma espécie de dedicação, um convite para uma viagem ao som dos Altered Images, com a belíssima voz de Clare Grogan e a acompanhar imagens de uma das princesas preferidas da minha filha.

Entre 1991 e 1997, trabalhei num apartamento terapêutico de saída, para toxicodependentes. O apartamento funcionava como a última fase, a terceira, de um processo de que começava numa comunidade em meio rural, perto de Lisboa, continuava para outra comunidade em meio rural afastada de Lisboa e terminava no apartamento num subúrbio de Lisboa. O apartamento tinha capacidade para 7 residentes (apenas do sexo masculino a partir de 1992) mais um monitor.

Duas noites por semana o meu trabalho era jantar, passar o serão e dormir no apartamento, ficava depois quatro noites fora, o que fazia com que em cada semana avançasse um dia, por forma a num mês ficar em quase todos os dias da semana, incluindo fins de semana. Do programa do apartamento faziam parte duas reuniões obrigatórias para os residentes. Uma ao Domingo em que se planificava a semana seguinte, coordenada pelo monitor, e outra à quinta-feira, chamada de reunião terapêutica em que 2 psiquiatras coordenavam a reunião.

Esses sete anos foram uma das mais ricas experiências da minha vida, tive contacto com muitos toxicodependentes, e vivi situações carregadas de emoção.

Uma das frases lema que me ficou desses tempos é a frase que dá título a este post, e que basicamente se refere a todo aquele que ao ser confrontado com um erro se procura desculpar inventando toda a espécie de argumentos. Centenas de vezes ao longo dos anos ouvi esta frase. Era considerado um sinal de insegurança e desvio do caminho saudável, que uma pessoa quando confrontada com um “deslize” se sentisse acossada e reagisse com uma bateria interminável de argumentos e desculpas, para justificar o seu “acto”. Mal alguém entrava por essa via, um dos presentes, quase sempre outro residente, lançava a frase – Bater-se é próprio do otário. E depois existiam duas saídas para o acossado, a primeira consistia em respirar fundo e admitir perante os outros, mas sobretudo perante ele, que de facto não estivera bem, ou continuar a tentar justificar-se.

Na altura, muitas das vezes, parecia-me excessivo o castigo emocional que se pretendia obrigar a pessoa a sentir ao admitir assim de forma tão frontal a falha, mas com o tempo fui reconhecendo que nessa atitude se conseguiam prevenir situações piores e em alguns casos até obrigava a uma meditação por parte dos visados que lhes trazia algum conforto na sua luta diária.

Desde que sai, em 1997, deixei de ouvir essa frase, tirando uma ou outra vez em que eu próprio a usei. Ficou assim encerrada dentro daquele espaço, como se fora dele não fizesse muito sentido a sua utilização, ou como se fosse necessário um código comum para ser entendida numa conversa exterior ao ambiente terapêutico. pelo que apenas me resta usá-la comigo sempre que tenho a lucidez de me aperceber que me estou a bater que nem um otário.

Algum pragmatismo de vez em quando nunca fez mal a ninguém. Pode-se ser mais pragmático na vida do que aceitar o seu fim. Por mais incógnita que seja a data, ela existe. Por isso, às vezes, tomando esse dado como ponto assente, temos que nos concentrar no presente e nas suas possibilidades.Isto leva-nos a resoluções que não imaginaríamos como razoáveis antes.

Constatação primária, as coordenadas pelas quais habitualmente nos regemos, ganham sob este prisma pragmático uma certa flexibilidade, não digo que desaparecem, mas abrem espaço a que se pense em alternativas, a que se organizem os pensamentos de outra maneira e depois de muitas voltas (e reviravoltas), podem chegar conclusões novas e decisões inesperadas.

Todo este prelúdio argumentativo para racionalizar uma única coisa – tenho que imigrar.

Foi assim, que aconteceu, depois da teimosia, do capricho, do orgulho, da procrastinação, da raiva, da dor e do quase esmorecimento que surgiu a vez do pragmatismo, e ele vai levar-me para fora.

NOTA: para além de ser o titulo deste post (traduzido para português), a música que encerra este post, é uma das minhas músicas de sempre, daquelas a que regresso com frequência.

 

Com o crescimento das horas em frente ao computador e consequente expansão dos fenómenos das redes sociais, o cidadão tem hoje à sua disposição uma enorme quantidade de informação, proveniente de vários cantos do globo, desde a opinião do estudante de economia ao padre, passando pelas organizações ambientais e de defesa dos animais, até um infindável número de grupos e sub-grupos, todos eles veiculando informação, não raras vezes contraditórias, e em alguns casos anulando os seus efeitos graças ao choque de forças opostas em doses iguais de intensidade.

Acontece que dou por mim a pensar qual das fontes será de facto credível, de entre os sites que visito regularmente, normalmente ligados ao cinema, música, literatura, futebol, surf e politica, encontro por vezes fenómenos estranhos de mimetismo, e nalguns casos uma única fonte (ás vezes quase desconhecida) leva dezenas de sites a citá-la e a avançar com opiniões sobre a sua notícia, até agora ainda não encontrei desmentidos, mas noto que é praticamente desnecessário ler sobre determinado assunto em dois sites diferentes, pois ambos o abordam da mesma forma.

Nas redes sociais acontece algo ainda mais complicado, espalham-se rapidamente rumores que rapidamente passam a noticia e por vezes são completamente inventados.

Ora se a grande vantagem da internet é colocar à nossa disposição informação e pontos de vista diferentes, o mimetismo estraga essa vantagem, e se a credibilidade também for questionada devido ao crescente aumento de “boatos” nas redes sociais, ficamos com a nossa tarefa bem mais dificultada, teremos que ir mais longe nas nossas pesquisas e verificar a veracidade de qualquer notícia antes de a espalharmos pelas redes sociais (eu já caí nesse erro e fui um dos que ajudou a enterrar o Jon Bon Jovi).

Continua, no entanto, a ser uma das invenções mais revolucionárias que a nossa espécie criou, e por mais “monstros” que se criem em torno dela, será sempre uma janela para o mundo que dantes não existia e que agora é difícil imaginar viver sem ela. Portanto é preferível ter de navegar por ela com mais trabalho e cuidado nas nossas buscas do que sujeitá-la a qualquer tipo de regra que limite a liberdade que ela permite.