Archive for the ‘Coração – Sentimentos’ Category

Eu escrevi aqui que só voltaria a este blog, quando percebesse que existia algum post mais retrospectivo, que me obrigasse a sentir a nostalgia ou pelo menos a noção de caminho percorrido, em vez de o colocar no meu outro blog (aceno), que existe com a vontade de olhar para o caminho a percorrer. Bem sei que é um pouco ilusória esta divisão, tratando-se sempre de mim e das minhas vivências, o caminho é apenas um – o meu. Mas de qualquer forma, acredito existir um ponto antes e um ponto depois e por isso mantenho esta decisão.

O que me trouxe aqui foi a consciência de que passadas duas semanas em Luanda, dei por mim ontem, antes de adormecer, a reviver um pouco dos meus tempos mais recentes, mais precisamente o último ano. É certo que existe desde logo uma analogia entre Maio de 2011 e Maio de 2012, em ambos os momentos estive “fora de casa”, a diferença surge depois ao considerar que em Luanda existe mais aproximação a uma casa do que existia na Guarda o ano passado, e porque em Luanda o tempo aqui vivido será muito mais do que o mês que passei na Guarda em 2011, e os projectos estão em aberto.

Mas este olhar para trás, mexe noutras questões, às quais os meus pensamentos não conseguem fugir. O ano passado o meu horizonte nesta fase do mês era pouco claro, e o meu futuro mais próximo adivinhava-se repleto de nuvens negras (não apenas a nível profissional como a nível pessoal), e esse espectro negativo veio a confirmar-se em muitas coisas, pelo que o olhar para trás me deixa a sensação de ter a capacidade de conseguir encarar, agora melhor, aquele que terá sido o pior ano da minha vida em muitos aspectos, e que vai desde o final de Abril de 2011, até ao final de Abril de 2012. É óbvio que nesse período coisas boas aconteceram e mesmo no último mês desse ciclo já existia uma luz no fundo do túnel, mas para mim esses doze meses foram um ciclo.

Um ciclo de aprendizagem, de exposição, de quebra minha auto-estima e de tristeza. Passei por ele com a ajuda das pessoas a quem mais quero no mundo, amigos e família que me ensinaram em pequenos gestos a crescer e a acreditar.

Agora a milhares de quilómetros de onde esse ano se passou, não é apenas a distância geográfica que sinto, existe também um crescente afastamento das emoções menos boas desse período. Muita coisa está por “fechar”, e muitos sentimentos a desenvolver mas agora consigo olhar para trás e ter alguma esperança no que vem pela frente.

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Fez agora um ano (27 de Março), que inaugurei este blog. Na altura apenas sabia que queria partilhar pensamentos e que havia muita coisa relativa ao meu passado que gostava de deixar escrito. Aliei a isso a vontade de escrever algumas coisas que pudesse, no futuro, vir a ser pistas para a minha filha sobre quem é o seu pai e parti para a aventura a que dei o nome de O Corpo Fala, porque sentia que era exactamente isso que eu queria que acontecesse, que o meu corpo falasse, não apenas o cérebro, mas todas as outras partes que por vezes relegamos para segundo plano quando se trata de nos exprimir-mos.

Não fiz qualquer tipo de futurologia sobre o tempo e o caminho que o blog ia levar, mas fui continuando, sempre com prazer a colocar posts, e cheguei quase aos 500 (485 para ser mais preciso). Este ano que passou foi, não adianta tentar esconder, um dos mais difíceis anos da minha vida relativamente a várias questões pessoais e profissionais, não quero outro assim, garanto! Mas ter o blog ajudou-me, vou mesmo mais longe e assumo que O Corpo Fala, cumpriu, entre várias funções, uma função terapêutica. Ajudou-me a reflectir sobre o que ia sentindo, ocupou-me a mente com coisas boas quando em redor tudo parecia desmoronar, obrigou-me a desenvolver uma rotina que me impediu de ser completamente letárgico em vários períodos, e mais ainda, ao escrever sobre certos temas e emoções, fez com que eu as conseguisse “digerir” melhor e com que a minha organização mental por vezes abandonasse o caos em que estava enfiada.

Para além de tudo o que já referi, O Corpo Fala ainda me deu um bónus (bastante grande), que foi ter chegado a outras pessoas, ter conseguido por via dele comunicar com amigos e familiares de uma forma que só a leitura de alguns posts, por parte deles, permitiu. Bem sei que este blog não é um recordista de visitas, mas para mim foi uma verdadeira surpresa a adesão que teve, entre amigos e amigos de amigos, fui recebendo um feedback que me animou. Obrigado a todos os que contribuíram para isso, acho que de certa forma me aproximou de algumas pessoas, o que per si já é um enorme feito.

E a cereja no topo do bolo é que me ajudou a melhorar a minha comunicação escrita, onde muito está ainda por corrigir, mas onde muito já foi conquistado neste ano.

Mas…

Tudo tem o seu tempo, é uma verdade a que este blog não consegue escapar, e agora sinto que chegou a hora de deixar de ter uma visão que foi em muito assente na reflexão sobre o passado e as influências dele na actualidade, fossem essas nostalgias geradoras de posts sobre música, filmes, livros, situações vividas, etc.

Agora apetece-me escrever centrado no presente, olhar para o dia a dia e tentar aí apanhar um vislumbre do que pode estar para vir. Vou sentir à mesma vontade partilhar descobertas de filmes, livros ou discos, de criar pequenas histórias criadas a partir desse futuro imaginado e deste presente vivido. Vou escrever apontamentos à laia de diário e continuar a reflectir sobre o que me rodeia, o que muda é a sensação de nostalgia que percorreu grande parte dos posts deste blog, que será substituída (assim espero e desejo), por uma sensação de tempo presente. Para isso criei um novo blog a que dei o nome ACENO (aceno.wordpress.com), porque acenar é um gesto que me faz sentir feliz, é algo que chuta a indiferença e mantém o contacto e porque pode ser um gesto bonito e gracioso. A partir de hoje o Aceno será a minha principal forma de comunicação via  internet, deixando O Corpo Fala ficar num lugar mais escondido, onde só virei esporádicamente, colocar um post que sofre de nostalgia aguda.

Por isso não este post não é bem um adeus mas um até sempre. O Corpo Fala, mas agora menos, porque quer Acenar mais.

Não podia fechar este post de outra forma, aqui partilho uma das músicas que mais invoca em mim o sentimento nostálgico. “Time Has Told Me” do grande, grande, grande Nick Drake. OBRIGADO

Depois de uma viagem comprada (só de ida), para Londres, onde desejava ir à procura de um trabalho que me pagasse as contas de cá e me permitisse juntar algum, surgiu a hipótese de ir trabalhar para Luanda, com boas condições e num projecto mais aliciante do que os previstos para Londres. Estou desde meio de Fevereiro à espera da confirmação da data de partida (que agora se apresenta como possível a meio de Abril), e numa mistura de sentimentos algo tortuosa. Por um lado a distância da minha filha, familiares e amigos, deixa-me um pouco triste, por outro a possibilidade de sair desta situação incomportável, alivia-me e dá-me alento.

Agora que a realidade por cá se torna cada vez mais negra, a sugestão de alguns membros do governo ficou cada vez mais como uma obrigação do que uma opção. Emigrar é preciso.

tenho umas vacinas para tomar e um passaporte para levar visto, e acima de tudo aguardo o telefonema com a data da partida. Eis o meu estado actual.

A tolerância é algo que, com o hábito e a rotina, se instala permitindo-nos resistir a algo que ao principio acreditamos ser muito insuportável,mas que com o tempo nos habituamos a suportar. A grande desvantagem da tolerância é que se adequa e possibilita o aumento da dose gradual sem que tenhamos consciência real do ponto a que chegamos. Portanto, o que de inicio poderia parecer bastante terrível pode, com o tempo, tornar-se na nossa zona de conforto.

Assim acontece muitas vezes e em relação a muitas coisas, demais até. Esta versatilidade, nem sempre funciona a nosso favor, ás vezes actua mais como nosso carrasco. Cria uma carapaça que torna tudo indolor e afastado do real, que nos impede de sentir e sofrer verdadeiramente. Pode até ser útil em determinados momentos para resistir ao choque inicial que certas situações provocam em nós, mas rapidamente temos que nos ver livres dessa protecção extra para poder viver o que temos que viver e seguir em frente.

Desabafo assim, por sentir estar sob o efeito dessa couraça que me protege e ao mesmo tempo me impede de sentir. Se gritar e chorar talvez destrua a capa protectora e talvez me aproxime do meus sentimentos.

Uma vez, quando era um jovem de apenas 16 anos, lembro-me de que ajudar o meu pai a cortar relva funcionou como protecção para um choque que queria evitar sentir. Agora, muitos anos depois já descobri mais formas de o fazer, ao mesmo tempo que a minha tolerância aos choques se tornou mais resistente. Pelo menos até ao momento em que o dique desabar.

 

Ontem dei por mim a assistir a uma daquelas entrevistas de fim de semana, conduzida pelo mais recente expoente da televisão portuguesa na arte do fingimento emocional que apela à lágrima fácil (não me lembro do nome do entrevistador, mas sei que ele é bastante conhecido). O entrevistado era o David Fonseca e por isso assisti à entrevista.O David foi meu colega de turma na escola de cinema, e fez parte da minha vida durante aqueles 3 anos que por lá passei. Hoje raramente nos vemos, embora quando isso aconteça exista vontade de por a conversa em dia.

Durante a entrevista o David disse que mantinha os pés na terra e que o sucesso não o tinha mudado porque a maioria dos seus amigos não gostava dos Silence 4. Fiquei a pensar nisso depois da entrevista terminar, e dei por mim a concordar parcialmente com ele. É verdade que não morro de amores pela música que os Silence 4, ou mesmo o David a solo, produziram, mas não sou capaz de dizer que não gosto. É uma ligação afectiva às suas criações que me impede de o fazer, é certo, mas é mais do que isso. Do que conheci do David, os seus gostos musicais, a sua paixão pela fotografia e muitas outras coisas mais que me levam a saber do potencial encerrado dentro dele. Digo encerrado porque acho que ainda não foi exposto, mas sei que o será.

Na altura em que o David “abrir o seu livro” todos iremos perceber que está ali. Não parou de fazer as suas aproximações, ora mais contido, ora mais liberto, com mais ou menos produção, umas vezes mais vestido de adereços outras mais despido, mas sempre em busca do que será, na essência, a música dele.

Presunção minha em querer saber qual é a verdadeira música de David Fonseca, pode ser, até aceito! Mas é uma crença pessoal que mantenho desde a primeira vez que o vi a tocar ao vivo, em 1997. Existe mais David do que este que nos foi mostrado até agora, existe um David que pode tocar mais fundo nas nossas emoções, acredito nisso de uma forma que nem o próprio será capaz de me contrariar.

As ramificações do que se escreve num blog, são várias e nem sempre as previstas. Sei disso desde que concebi este mesmo blog, mas mesmo assim decidi avançar e agora ao olhar para trás (quase um ano), tenho a certeza que muitas foram as curvas percorridas por alguns posts, enquanto outros ficaram quietinhos no seu sítio sem criar alarido ou sequer um pestanejar depois de expostos.

É uma rara forma de escrever, esta, que nos permite por cá para fora o que às vezes está bem dentro, sempre com uma certa protecção, aquela de quem não pode levar com tomates podres ou cuspidelas, por piores que sejam as frases que despeja. Não sou modesto nem arrogante, por isso sei que o que escrevo é normalmente fraco, e algumas vezes muito fraco. Gramaticalmente existe a pontuação, sempre às avessas, uma deformação da formação que ainda não foi corrigida, em termos de conteúdos o leque é tão grande que por vezes reina a confusão, quanto à construção, ora não existe um principio ora não existe um fim, e quase nunca um meio. A exposição tenta ser ligeira onde deve ser séria e é séria onde deve ser ligeira, isto acarreta, como consequência directa, uma forte sensação de estar a ler textos forçados e pouco originais. É verdade em todos os sentidos, forçados porque muitas vezes me obrigo a escrever, tendo apenas a vontade como tema para desenvolver, pouco originais porque mimetizo alguns textos que vou lendo de outras pessoas e acabo por fazer, sem o talento delas, cópias pouco dignas.

Não estou no modo masoquista, esta pensamento auto-critico é acompanhado de uma enorme certeza, criar este blog foi das decisões mais acertadas que alguma vez tomei, e colocar posts novos, quase todos os dias, um dos rituais mais apetecidos que alguma vez tive. Por isso não é com tristeza que exponho as fragilidades, pelo contrário, é com esperança na possibilidade de recuperação de algumas delas.

Todos o ser humano a partir de determinada idade tem a noção da fragilidade da vida. De que ela pode terminar a qualquer altura sem aviso prévio nem motivo óbvio. No fim de semana passado aconteceu uma coisa que vem provar isso e ao mesmo tempo consegue abrir uma porta sobre o seu contrário.

O caso foi noticiado em todo o mundo, durante um jogo de futebol da primeira liga inglesa, um jogador de seu nome Fabrice Muamba cai inanimado no relvado e é assistido ali sem grandes resultados e depois transportado ao hospital, onde durante largo tempo as noticias não saíram deixando antever o pior cenário.

Mais tarde surge o primeiro comunicado a informar que o jogador já tinha o coração a trabalhar, embora com auxilio de máquinas, depois o momento seguinte surgiu um dia depois quando segundo comunicado informa que o coração continuava a trabalhar, agora sem o auxilio de máquinas. Os médicos passaram a apresentar expectativas cada vez melhores sobre o desenvolvimento do seu estado de saúde e hoje dizem que para já está afastado o pior cenário.

Mas o que torna o caso Muamba extraordinário são os seguintes factos. O jogador, segundo informações do médico que o acompanhou desde o estádio, esteve 78 minutos “morto”, ou seja, sem batimentos cardíacos, com o coração literalmente parado, recebeu 14 electro-choques sem qualquer resultado. Só ao 15º é que sentiram os primeiros batimentos cardíacos.

Embora não sendo um grande espectador de séries de ficção passadas em hospitais, tenho para mim que a ideia de que algum paciente possa estar este tempo todo sem sinais cardíacos, e o staff que o rodeia insista, é algo de extraordinário. A persistência de uma equipa de médicos e enfermeiros que 78 minutos depois de uma paragem cardíaca e 14 electro-choques infrutíferos ainda está disposta a tentar mais é uma prova de que as boas vontades se concentraram ali.

Claro que agora, vamos ouvir os ingleses a defender (já começaram aliás) a elevada qualidade dos seus profissionais de saúde, vamos ouvir os crente necessitados de milagres a expor este caso como sendo um, vamos ouvir uma série de outros elogiarem a capacidade de resistência do ser humano, e muito mais explicações para a situação.

Mas a verdade que me deixa intrigado é o facto de 78 minutos não serem 78 segundos, de como é impressionante uma pessoa que esteve “morta” durante a quase duração de um jogo de futebol, ter regressado e acima de tudo ter regressado com esta pérola confidenciada por um dos médicos que o acompanhou. O médico ter-lhe à dito, pouco depois de Muamba ter sido informado sobre o que lhe acontecera, que havia recebido informações de que ele era um excelente futebolista, ao que Muamba respondeu  – Eu tento.

Tive muitos sonhos (projecções) sobre o meu futuro, quase todos dedicados a situações pontuais que queria viver,experiências que queria ter e emoções que queria sentir. Nem tudo foi realizado, até agora, mas uma boa parte cumpriu-se com maiores ou menores desvios em relação à forma original inscrita nos meus desejos.

Mas houve projecções que estranhamente, ou talvez não, nunca tive. Por exemplo nunca dei por mim a projectar com que tipo de mulher iria viver, que tipo de profissão iria ter ou que tipo de carro iria conduzir. Em certos aspectos sempre foi a realidade que impôs a sua verdade e nunca tiveram que combater com uma projecção idealizada na minha mente.

Uma única projecção foi significativamente inferior à realidade, refiro-me ao facto de ser pai. Desde cedo que fantasiei sobre isso e claro que muitas imagens me ocorreram, as brincadeiras que iria fazer, as conversas que iria ter e as emoções que iria partilhar. Tudo isso foram no entanto imagens inferiores àquela com que a vida me presenteou. Hoje posso dizer, mesmo correndo o risco de parecer mais um pai babado a falar da sua descendência, que a minha filha é muito melhor que qualquer fantasia que tive sobre filhos. É assim, porque tem uma personalidade forte, mesmo quando faz de mim um pai mandado, reconheço que é de forma ostensiva, como se não precisasse de ocultar do pai os seus verdadeiros motivos, o que me deixa feliz. Zanga-se, amua, faz birras e chora, mas tudo isso de uma forma que é tão à flor da pele que só me apetece cobri-la de beijos a abraços, ou o chamado “miminho” bom, nome que damos aos segundos em que nos abraçamos com ternura.

O resto das projecções, que ainda vou fazendo, passaram a ter outro valor desde a chegada da Íris e muito do que a minha cabeça imagina para a frente envolve-a. Existe uma parte de mim que pensa no meu futuro, com a profissão e carreira a necessitarem de constantes ajustes, algumas fantasias deram lugar a outras mais adequadas à actualidade, mas  no que a ela diz respeito existe muita fantasia ainda por concretizar, muita experiência para partilhar, que resistirá mesmo no dia em que ela adolescente me aparecer com um puto de mão dada pela frente.

Por falar em projecções, arrisco a fazer mais uma para fechar este post. Prevejo que um dos discos deste ano será “Mixed Emotions” o álbum de estreia dos Tanlines. Aqui fica o videoclip de “Brothers”, tema de apresentação do disco.

Pensando bem sobre as minhas decisões ao longo da vida, noto que uma boa parte delas foram tomadas tendo a intuição como principal aliado. Desde muito cedo que passei a confiar na intuição mais do que deveria. Primeiro foram os estudos, que até certa altura eram tão fáceis que não necessitava de me aplicar para conseguir as notas que deixavam os meus pais babados, depois com o correr dos anos, uma de duas coisas acontecia, ou a matéria ensinada era para mim de compreensão imediata e tinha graças a isso uma boa nota, ou então não era e marrava na véspera dos testes deixando grande parte das respostas para serem escritas com base na intuição. Resultado, as notas deixaram de agradar a quem quer que fosse (isto a partir do 10º ano).

Com a excepção dos filmes, das músicas e dos livros, onde me aplicava a sério para tentar saber mais e aprofundar o meu conhecimento, o que nem eu admitia ser esforço, pois tinha como motor o prazer, tudo o mais era deixado ao sabor do vento ou da intuição. Lia num jornal sobre um curso de formação subsidiado pelo fundo social europeu e não ligava, no dia seguinte lia sobre outro e dedicava-lhe toda a atenção necessária para me levar a frequentá-lo.  A intuição decidia.

E pela vida fora fui seguindo neste caminho pouco claro e desorganizado, onde a intuição pesou sempre muito. Por vezes as coisas correram bem e os meus amigos diziam que tinha sorte, e não se enganavam pois em muitos casos foi isso apenas que esteve na base de coisas boas – a sorte. Outras vezes as coisas correram menos bem e eu dizia que melhores dias viriam. Sempre confiando na minha intuição que teimava em me assegurar que o melhor estava para vir.

Como já não sou capaz de ignorar os factos e esconder a cabeça debaixo da terra, decidi que a intuição deve ter menos importância que a dedicação e a entrega, por isso tento recuperar o poder da decisão para mim de uma forma mais pragmática do que antes, evitando que a intuição se antecipe e decida sem mais. Os resultados ainda não são visíveis, pois as decisões tomadas sob efeito de reflexão demoram algum tempo a produzir resultados, pelo que aguardo pelos próximos tempos para fazer balanços.

Isto não quer dizer que tenha abdicado da intuição, ela está presente e eu tenho-a em conta, só que já não é a única a ser tida em conta (com a possível excepção dos jogos de Poker, onde para arreliação de alguns amigos ela ainda pesa bastante).

Se eu fosse mais esperto talvez tivesse enveredado por este caminho mais cedo, mas teria acabado com algumas ilusões antes do tempo e teria terminado a adolescência com a idade devida, assim prolonguei-a no tempo e não posso dizer que  não me diverti e que não cometi as minhas ousadias. Deram alegrias e tristezas, mas permitiram-me chegar a este ponto em que sei exactamente o que vivi e sei que muito pouco ficou de fora. Daqui para a frente é uma nova forma de caminhar, a ver se acerto o passo e reduzo a velocidade. Se compenso com dedicação a redução da euforia e se experimento a sobriedade com o prazer de quem se pode inebriar com ela.

Uma das bandas que mais gosto, e ainda pouco usada neste blog. Os XTC encerram este post com o adequado “Senses working overtime”

Depois de uma noite repleta de actividade, entre o sonhar e o acordar houve leituras e cigarros, depois mais sono e mais sonhos. A manhã passou devagar como se não existisse nenhum motivo para me levar até à hora de almoço.

Ocupei-me com os sons do David Sylvian e a sua companhia tornou a manhã ainda mais lenta e mais indolente.“Here come the darkest birds / All tar and feathers / Why did none of them dream of trying / To make things better”

Nos meus pensamentos circularam vários tópicos, todos eles afastados uns dos outros, uma paleta de memórias e desejos, aberta para a minha consulta rápida, sem que nada me fizesse deter em algum ponto especifico. As reviravoltas mentais corresponderam a mais copos de leite e cigarros numa preguiça considerável.

Ao ligar o computador as coisas não se alteraram, os vários passeios pelas páginas habituais apenas prolongaram o efeito que vinha de trás. Uma noticia que vale a pena explorar, mais tarde, uma curiosidade que consegue fazer-me pensar dez segundos sobre ela, uma música que não me satisfaz durante muito tempo e uma previsão meteorológica que confirma o que os meus olhos conseguem ver.

Lá fora não é apelativo, cá dentro não existe mais para fazer. Um sabor novo invade a minha garganta ao comer metade de um bolo que sobrou de ontem, mais um copo de leite e respectivo cigarro. Nada se altera.

Não é possível obter estados de inebriamento sempre que se deseja, é uma lição que aprendi cedo mas da qual continuo a duvidar. Tenho pretensões a descobrir algo que contrarie esta realidade.

“And this is the road I walked on / When I shot you down / All words of forgiveness useless” assim entendi o David Sylvian, que entretanto regressou.

Ontem, dia 15 de Março, passaram 21 anos sobre o dia do meu juramento de bandeira. Tamanha foi a marca que o cumprimento do serviço militar obrigatório deixou em mim, que ainda hoje me lembro das datas. Entrei a 28 de Janeiro, fiz o juramento a 15 de Março e saí a 26 de Junho, tudo isso no ano de 1991.

A tropa foi algo do qual eu tentei esquivar-me, sem sucesso. Admito que as minhas opiniões sobre o serviço militar obrigatório eram completamente contra a sua existência, e ainda hoje defendo que a carreira militar deve ser uma opção e nunca uma obrigação, e se por qualquer motivo der por mim a defender um serviço comunitário durante um período que vá de 3 a 6 meses para cada cidadão, é porque acredito que a sociedade pode tirar benefícios disso, mas nunca confundi tal situação com a ida à tropa.

Foi uma experiência que rondou o traumático, estive durante 5 meses com a sensação de que estava preso, deprimi, emagreci, perdi vontade em respeitar qualquer tipo de hierarquia onde os elementos superiores fossem ali colocados por antiguidade, lambe-botismo e tendências sádicas. A minha tristeza aos poucos transformou-se em raiva e com o passar do tempo em completa indiferença para com aquelas pessoas. O efeito que isso teve nos meus superiores foi o de me considerarem alguém em quem o serviço militar devia apostar, alguém que segundo eles podia ser um exemplo para os outros, o ridículo da situação, era tal que eu passei a ser considerado um modelo. Eu que não me chateava com nada, não me queria envolver em nada, só queria que aquilo acabasse depressa, fui chamado quatro dias antes do juramento de bandeira ao gabinete do comandante do quartel (RIBE – Regimento de Infantaria de Beja), para ser por ele informado que no dia do juramento de bandeira, o meu nome iria chamado pelo microfone e que eu teria que aprender umas posições novas sobre como largar a arma e me dirigir de forma elegante por trás de todos os recrutas e depois pela lateral passar para a frente de todos eles e dirigir-me à tribuna, onde ele – o comandante, me iria entregar uma medalha. Imaginem o meu ar incrédulo, perguntei-lhe medalha por quê?, ao que ele me respondeu que iria receber uma medalha de mérito pessoal por ter sido o recruta com melhor comportamento (de entre 160) que entraram naquela incorporação. Retorqui que eles deveriam entregar isso a quem quisesse seguir carreira militar e não a alguém que preferia não estar ali. Isso não o demoveu e quatro dias depois lá estava eu a receber a dita medalha.Esse facto não alterou em nada a minha relação com o serviço militar obrigatório, apenas acrescentou mais força à minha noção de que tudo aquilo era um pouco fora da realidade.

Depois da recruta ainda estive dois meses em Cascais, onde tinha a vantagem de estar perto de casa e ter um canto na muralha onde me sentava a olhar o mar sem ser incomodado. O dia da alegria chegou pois a 26 de Junho.

A vulnerabilidade é uma sensação que me visita ocasionalmente. Sem marcar hora, nem sequer avisar que veio para estar uma hora, uma tarde ou um dia inteiro, ela aparece. Normalmente recebo-a com algum desagrado, procuro dar-lhe pouca atenção, na esperança de que não se sentindo bem vinda acabe por tomar a sensata decisão de me abandonar. Mas se existe uma coisa que eu já percebi sobre ela, é que não é muito atenta a esses sinais e insinua a sua presença independentemente da forma como é recebida (acho que ela tem um perfil sádico).

Depois de vários encontros e outras tantas tentativas das quais consegui escapar, ou porque fingi não estar e ela acreditou e foi embora, ou porque entretanto chegaram outras visitas e ela, que prefere visitar-me a solo, desaparece. Arranjei forma de a ter mais ou menos controlada, primeiro certo que estou de que as razões das suas visitas são invariavelmente as mesmas desde há anos, reuni uma mão cheia de argumentos que a deixam um pouco desorientada, depois quando ela menos espera, desfiro o ataque final e admito que ela não deixa deter razão, concedo-lhe esse prazer, que é o suficiente para satisfazer a sua necessidade sádica e a partir daí ela fica mais dócil e por vezes até inverte os papeis e acaba a consolar-me.

A minha relação com a vulnerabilidade é nesta altura fruto de vários anos de experiência e muitos anos de resistência, pelo que olhando para trás não posso deixar de considerar que existe entre nós um profundo conhecimento mútuo que nos permite deixar de inventar preliminares e conversas de cortesia e passar directamente aos assunto que nos ligam. Soubesse eu tratar desta forma outras visitas menos desejadas e poderia dizer que já conquistara na vida uma sabedoria relevante, mas ainda acredito que essa altura possa chegar. Por hora vou tentando decifrar os sinais que me aparecem sob todas as formas para perceber melhor o tipo de mundo em que vivo e o tipo de pessoa que eu sou nesse mundo.

Pode parecer algo vaidoso e sem grande significado, explicar a minha relação com a vulnerabilidade, mas eu sei, e ela também sabe que é dessa tentativa de explicação que eu necessito para a conhecer melhor e para lidar com ela de uma forma mais equilibrada, impedindo-a assim de ser ela a tomar sempre a posição do master e eu do obediente servant.

A grande vantagem de uma relação paritária com a vulnerabilidade é que deixo de me sentir ameaçado por ela e passo a reconhecer nela uma possível aliada. O que não quer dizer que não fique sempre um bocado apreensivo quando ela aparece.

emotion and landscapes – state of emergency – how beautiful to be

As imagens podem ser banais ou fascinantes, podem deixar-nos sem palavras ou entediados, quando são boas, não são inócuas, quando valem a pena são elas que nos conduzem a mundos novos, através delas a nossa mente pode viver experiências fundamentais para o nosso crescimento e auto-conhecimento, as emoções podem variar entre o prazer e a angústia, mas se as imagens forem boas o resultado final dessas será sempre positivo.

Existem filmes, documentários, videoclips e até spots publicitários que conseguem alcançar essa maravilha que é por o nosso cérebro a reflectir ao mesmo tempo que o nosso coração está a sentir.

Aqui coloco o mais recente conjunto de imagens que me deixou nesse estado. É um pequeno videoclip e uma enorme pérola. Nele todos os factores se conjugaram, a música, as vozes, a letra e as imagens.

Primeiro um excerto da letra:

“You never worship, you never worship your life. You never worship, you never worship your life. All the while you’re standing still you’re always in the past. You won’t let the good times in, if you do, you make sure they won’t last. Can’t you see the lights they’re shining to lead you back again? My heartbeats can be a silver lining just listen well to them.”

E agora o vídeo:

Um post com este titulo é sempre arriscado nos tempos que correm, por via de uma conotação doente que nos tem vindo a ser colada ao cérebro. Só que esta é uma verdade pessoal à qual não consigo escapar. Estar com crianças e sentir a sua energia sempre foi uma das minhas alegrias, e ao contrário do senso comum mal instalado de que as crianças nos fazem velhos, eu sei que a mim me fazem novo, não só porque alimentam o Peter Pan que existe em mim, mas sobretudo porque não conheço nada mais rejuvenescedor do que o sorriso de uma criança.

Comecei cedo a tomar consciência desse efeito benigno que as crianças tinham em mim, talvez antes mesmo do que eu aqui me vou lembrar. Primeiro foram os meus primos João e Pedro, agora a baterem nas 3 décadas de idade, depois os meus outros primos Bruno e Marco (que me lembro de ter levado ao Aquaparque no fim de semana das terríveis ocorrências naquele espaço), depois surgiu o Tomé, este o primeiro do qual tenho consciência de ter estado perto a ver crescer, desde o nascimento até agora, e depois vieram os outros todos, os Lós (Mafalda, Toninho e Quico), a Joana Garrido, o Franças, e o Pedro todos amiguinhos do Tomé (e meus!), os meus sobrinhos cada um mais lindo que o outro numa roda viva de quatro seres (a Catarina, o Pedro, a Camila e o João), as Vinagres (Joana e Filipa), o Britinhas (que se chama Francisco e é filho do meu amigo Luís, ganhou esta alcunha porque o pai o embalava como se fosse uma britadeira quando ele tinha uns tenros dois meses), as Pinhos (Beatriz e Violeta), o Sázinho, a Raquel que nasceu no meu dia de anos, as Bacelares (Marta e Maria), a Serôdia (Martinha), as Mimosos (Sofia e Rita), os Venâncios (Nuno e Sara), a Maria Luís (que mal a vi mas gosto do que conheço), o Altenor Jr (que ainda só vi de fotografia e tem como verdadeiro nome Benjamim). E mais existem que a minha cabeça de alho chocho não se lembrou agora.

Claro que a criança que mais gosto tem o nome de Íris e graças a ela já existem mais crianças no meu mundo, as suas coleguinhas Leonor, Matilde, Isabel e as Bárbaras.

Mas este post ocorreu-me ao pensar que hoje chega aos 16 anos a Ritinha (irmã do Tomé), ela foi desde os dois meses de idade todos os anos à Mina de S. Domingos na época do meu aniversário, é uma miúda que vi crescer e que passou de bichinho do mato, agarrada ás saias da sua mãe para uma adolescente cheia de personalidade. Hoje chegou o dia em que passa a senhorinha, e a sua mãe já me confidenciou que se vestiu a rigor para ir para a escola – “estava tão linda a Rita hoje de manhã” disse-me a Ana ao telefone.

Parabéns Ritinha, desejo muitos e bons e quero que saibas que fazes parte deste enorme grupo de crianças que me ajudam a sentir novo. Beijos.

Tentei evitar o cliché do Billy Idol, mas o Neil Sedaka, Chuck Berry, Hillary Duff e demais mostraram-se piores alternativas, para além de que existe algo neste tema que eu gosto, deve ser por o ter conhecido perto dos meus 16.

Este fim de semana foi o primeiro em que a Íris se aventurou a andar de bicicleta, começou de forma um pouco frustrante na Sexta-feira ao final da tarde, em que os parafusos de uma das rodinhas se soltaram e ela pouco conseguiu andar, tendo aproveitado o sol para se por em tronco nu e descalça a correr pela areia.

No Sábado, já com os problemas resolvidos decidiu mostrar-me de que fibra é feita e levou-me a percorrer, sempre atrás dela, o paredão, entre a praia da Poça e a do Tamariz, ao chegar, resolveu cravar-me uns óculos de sol na loja que existe no túnel do Tamariz e seguiu viagem de regresso à Poça, aí fui eu que achando que ela tinha consumido algumas energias a presenteei com um gelado (Calippo cola, escolha dela).

Depois do gelado comido, voltou a sentar-se na bicicleta e lá fomos nós novamente ao Tamariz, as ondas batiam no paredão e uns salpico de água refrescavam a face em dois ou três pontos do percurso. Ao chegar ao Tamariz decidiu tentar subir e descer a rampa que dá acesso ao túnel e não descansou enquanto não conseguiu, depois regresso à Poça, onde se limitou a fazer vários percurso no largo da praia, subindo um pouco da rampa de acesso à marginal e descendo a mesma a velocidade considerável, para quem tinha começado nesse dia a andar de bicicleta a sério. Depois ainda ousou fazer várias vezes o túnel da Poça, porque é liso e lhe permite ganhar mais velocidade.

No Domingo, estava incapaz de a acompanhar e por isso o assistente de serviço foi a avó, que fez com ela mais duas vezes a visita ao Tamariz, e ainda teve direito a ver a neta tentar um cavalinho apenas porque viu um rapaz a tentar fazer na sua bicicleta mesmo em frente dela. Mais um gelado e e um cachorro, alguns novos passeios pelo túnel da Poça e vários pequenos passeios em redor da esplanada, sempre acompanhados pela frase-  “Eu já volto”.

Não sei como é que ela viveu esta experiência, mas para mim, foi emocionante, não é apenas baba paternal é também a sensação de desenvolvimento do ser humano, das suas adaptações e das suas lutas para ultrapassar os obstáculos (sim, porque também teve direito no Sábado à sua primeira queda de bicicleta). Claro que ver de perto e sendo minha filha a emoção é maior.

As histórias que conto à minha filha são inventadas e, não raras vezes, acontece faltarem-me  assuntos que no momento possa desenvolver e criar uma história nova para ela, por isso vou criando em círculos, inventando a partir da última que lhe contei e tentando desenvolver uma cronologia dos personagens que faça algum sentido para ela.

Inicialmente ela limitava-se a ouvir a história, sendo reduzidas as suas intervenções, agora, com o medo do fim das mesmas histórias ela vai colocando questões sobre as personagens e o porquê dos seus comportamentos para prolongar o tempo em que vivemos os dois nessa fantasia. A verdade é que com essas perguntas ela me ajuda a desenvolver mais e me ajuda também a perceber o entendimento que ela vai tendo dos personagens e situações vividas por eles, bem como deixa escapar o que lhe interessa mais.

Quando me imaginava pai, antes de o ser, fantasiava com a imagem do adulto sentado na beira da cama a ler-lhe um livro, hoje 6 anos passados após o nascimento da Íris essa imagem desapareceu sendo substituída pela do adulto que se procura desenvencilhar num mundo de fantasia que ele próprio criou para oferecer sob a forma de história à sua filha. Só que esse mundo não é tão distante da nossa realidade, diria mesmo que as minhas história vivem dum naturalismo acentuado, a como estão sempre em fase de construção passaram a ser co-criadas pela Íris.

Não me lembro dos meus primeiros 6 anos de vida, o tempo que vivi em Angola. Mas, imagino que deveria adorar histórias.

A internet, principalmente as redes sociais e os blogs, podem e devem ser veículos de transmissão das causas que consideramos justas e pelas quais queremos lutar. Hoje ao ver o vídeo que em baixo partilho, tomei conhecimento de um drama que infelizmente imaginava possível nos meus pesadelos, mas que tomou contornos de realidade. Assim, decidi apoiar e lutar por esta causa. É bem simples a forma de luta – tornar conhecido Kony, durante 2012.

Existem várias coisas que podemos fazer, de graça, por esta causa, basta DEDICAR uns minutos do nosso tempo e visitar o site http://www.kony2012.com/ para perceber de que forma podemos ajudar e fazer parte desta luta.

Para já, todos os que quiserem partilhar este filme estão a contribuir directamente.

As coisas que poderiam ter acontecido e não aconteceram, as que aconteceram de forma diferente e todas as outras variações que me levam a deter-me, por vezes, na expressão “e se…”

Não são assim muitos os ressentimentos ou os desejos de voltar atrás, mas mesmo pensando desta forma não deixo de me colocar, hipoteticamente, nalgumas situações relevantes da minha vida, em modo de actuação alternativa. Imagino o que poderiam ter sido os desfechos de certas vivências se a minha decisão tivesse sido outra. Mas, por mais voltas que dê, fica sempre a sensação de que o passado apenas pode servir como guia para o futuro e nunca como alternativa ao próprio passado.

Por isso, o que está feito está feito e não pode ser desfeito.

Nem de propósito, “Ghost of a Chance” – o magistral saxofone de Lester Young.

É uma experiência ver o filme “Shame” de Steve McQueen. Um filme que olha para o corpo e para intimidade humana com a desconcertante frieza de um diagnóstico.

Um filme onde não existe qualquer tipo de veneração da sexualidade ou sequer uma tentativa de olhar o corpo humano feminino ou masculino pela sua beleza ou graciosidade. “Shame” (“Vergonha” tradução literal em português) é um filme como poucos na sua capacidade para nos entregar as mais vivas e cruas emoções da solidão contemporânea nas cidades. Feito com a paciência de quem elabora uma filigrana, momento a momento, temos o tempo que necessitamos para entrar no mundo de Brandon (soberba interpretação de Michael Fassbender), e fazer com ele a viagem do despojamento e da entrega, não uma entrega no sentido de causa, antes uma entrega à ausência de qualquer tipo de causa. É o corpo que se entrega, já não pelo hedonismo das décadas anteriores, mas sim pela cedência ao vazio, é antes uma rendição ou uma desistência, nunca uma luta por qualquer objectivo.

A cidade de Nova Iorque como pano de fundo a esta alegoria da vida sem destino, é uma personagem activa no sentido em que só na cidade, na grande cidade, é possível este sentimento de perda, de indiferença na entrega da nossa intimidade.

Com tanta crueza é apesar de tudo um filme cheio de momentos bonitos, mesmo que essa beleza encarne na solidão dos olhares.

Poderia encerrar este elogio a “Shame” com um excerto do filme, ou mesmo o trailer, mas prefiro destacar um músico e as suas canções. Trata-se de Simone Felice (apesar do nome é um homem, e faz parte do colectivo Felice Brothers), que acaba de editar um álbum a solo, que será, quase de certeza, um dos melhores discos de 2012 para mim. De lá vem este tema “New York Times”, aqui também apresentado num videoclip sem aditivos.

 

“We find delight in the beauty and happiness of children that makes the heart too big for the body” Ralph Waldo Emerson
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A alegria existe. Tem um rosto. Sorridente, com olhos ora castanhos, ora verdes, um cabelo encaracolado, loiro, denso e forte. Tem uma energia inesgotável que quando decide repousar parece que foi o mundo que decidiu parar. Tem uma propensão para elevar todos os nossos sentidos, agarra-nos e leva-nos com ela num turbilhão eléctrico de sensações. A alegria dá-nos a mão sempre que nós pedimos, e sempre que o não fazemos ela toma a iniciativa. A minha alegria tem um nome – Íris.

Para terminar uma espécie de dedicação, um convite para uma viagem ao som dos Altered Images, com a belíssima voz de Clare Grogan e a acompanhar imagens de uma das princesas preferidas da minha filha.

Entre 1991 e 1997, trabalhei num apartamento terapêutico de saída, para toxicodependentes. O apartamento funcionava como a última fase, a terceira, de um processo de que começava numa comunidade em meio rural, perto de Lisboa, continuava para outra comunidade em meio rural afastada de Lisboa e terminava no apartamento num subúrbio de Lisboa. O apartamento tinha capacidade para 7 residentes (apenas do sexo masculino a partir de 1992) mais um monitor.

Duas noites por semana o meu trabalho era jantar, passar o serão e dormir no apartamento, ficava depois quatro noites fora, o que fazia com que em cada semana avançasse um dia, por forma a num mês ficar em quase todos os dias da semana, incluindo fins de semana. Do programa do apartamento faziam parte duas reuniões obrigatórias para os residentes. Uma ao Domingo em que se planificava a semana seguinte, coordenada pelo monitor, e outra à quinta-feira, chamada de reunião terapêutica em que 2 psiquiatras coordenavam a reunião.

Esses sete anos foram uma das mais ricas experiências da minha vida, tive contacto com muitos toxicodependentes, e vivi situações carregadas de emoção.

Uma das frases lema que me ficou desses tempos é a frase que dá título a este post, e que basicamente se refere a todo aquele que ao ser confrontado com um erro se procura desculpar inventando toda a espécie de argumentos. Centenas de vezes ao longo dos anos ouvi esta frase. Era considerado um sinal de insegurança e desvio do caminho saudável, que uma pessoa quando confrontada com um “deslize” se sentisse acossada e reagisse com uma bateria interminável de argumentos e desculpas, para justificar o seu “acto”. Mal alguém entrava por essa via, um dos presentes, quase sempre outro residente, lançava a frase – Bater-se é próprio do otário. E depois existiam duas saídas para o acossado, a primeira consistia em respirar fundo e admitir perante os outros, mas sobretudo perante ele, que de facto não estivera bem, ou continuar a tentar justificar-se.

Na altura, muitas das vezes, parecia-me excessivo o castigo emocional que se pretendia obrigar a pessoa a sentir ao admitir assim de forma tão frontal a falha, mas com o tempo fui reconhecendo que nessa atitude se conseguiam prevenir situações piores e em alguns casos até obrigava a uma meditação por parte dos visados que lhes trazia algum conforto na sua luta diária.

Desde que sai, em 1997, deixei de ouvir essa frase, tirando uma ou outra vez em que eu próprio a usei. Ficou assim encerrada dentro daquele espaço, como se fora dele não fizesse muito sentido a sua utilização, ou como se fosse necessário um código comum para ser entendida numa conversa exterior ao ambiente terapêutico. pelo que apenas me resta usá-la comigo sempre que tenho a lucidez de me aperceber que me estou a bater que nem um otário.

Algum pragmatismo de vez em quando nunca fez mal a ninguém. Pode-se ser mais pragmático na vida do que aceitar o seu fim. Por mais incógnita que seja a data, ela existe. Por isso, às vezes, tomando esse dado como ponto assente, temos que nos concentrar no presente e nas suas possibilidades.Isto leva-nos a resoluções que não imaginaríamos como razoáveis antes.

Constatação primária, as coordenadas pelas quais habitualmente nos regemos, ganham sob este prisma pragmático uma certa flexibilidade, não digo que desaparecem, mas abrem espaço a que se pense em alternativas, a que se organizem os pensamentos de outra maneira e depois de muitas voltas (e reviravoltas), podem chegar conclusões novas e decisões inesperadas.

Todo este prelúdio argumentativo para racionalizar uma única coisa – tenho que imigrar.

Foi assim, que aconteceu, depois da teimosia, do capricho, do orgulho, da procrastinação, da raiva, da dor e do quase esmorecimento que surgiu a vez do pragmatismo, e ele vai levar-me para fora.

NOTA: para além de ser o titulo deste post (traduzido para português), a música que encerra este post, é uma das minhas músicas de sempre, daquelas a que regresso com frequência.

 

No outro dia explicava à minha filha que toda a gente tem medos, que é normal ter medo, só não podemos deixar que os medos tomem conta de nós. Até aqui tudo não passou de um normal aconselhamento paternal, baseado em experiência pessoal e muitos anos de imersão em doutrinas mais ou menos psicológicas. Depois a minha filha colocou a questão que qualquer ser racional colocaria e que foi: Quais são os teus medos pai?

A minha resposta começou por não dizer nada, ao dizer-lhe – São muitos filha. Mas depois decidi dar-lhe algo mais concreto e disse-lhe que tinha medo de morrer. Apercebi-me de que a minha resposta poderia ser catalisadora de medo e apressei-me a acrescentar que tinha medo de ondas grandes e de cães que não conheço.

Hoje, dois dias passados, ainda me fazem eco no cérebro estas palavras e o olhar da minha filha, tentando ver nos meus olhos de que forma os meus medos eram genuínos.

A cultura do medo não é uma coisa bonita de assumir, mas acho que todos contribuímos para a sua perpetuação.

 

Entre as suas rotinas existia uma da qual Manuel jamais abdicaria. Todas as tardes, por volta da hora em que o sol se preparava para esconder os seus raios atrás das árvores do parque, os seus vizinhos da frente sentavam-se na varanda, primeiro aparecia o homem, alto e grisalho com um corpo bastante desenvolto para os sessenta anos de idade que carregava, um minuto depois aparecia a mulher, loira cerca de vinte anos mais nova, bonita e elegante, carregando na mão duas cervejas, entregando-lhe uma e sentando-se numa das duas cadeiras da varanda, só então o homem se sentava, num gesto que denunciava mais companheirismo que cavalheirismo. Durante cerca de quinze minutos eles ali ficavam a olhar alternadamente para o pôr do sol e um para o outro, era raro trocarem alguma palavra, e nunca, mesmo nunca se levantavam. Era um momento ritualizado por eles, com anos de prática e sem alterações. No inverno ou nos dias de chuva eles cumpriam a rotina como se nada os pudesse impedir daqueles momentos de comunhão com o planeta e com eles próprios.

Para Manuel, sem que ele se apercebesse este tornou-se um momento especial, de tal forma que abdicava de qualquer compromisso àquela hora, e quando, por motivos profissionais, tinha de se ausentar ou chegava atrasado, o seu dia perdia parte importante do interesse. Houve uma altura em que a sua observação do casal era tímida, tinha medo que reparassem nele e que de alguma forma isso pudesse estragar toda a aura em volta do momento, com o tempo foi perdendo a timidez e, nos últimos meses, já tinha colocado uma cadeira para ele na sua varanda e comprava packs de cerveja da mesma marca para poder beber durante aqueles minutos no fim da tarde. Começou por ser mais rápido que eles a beber a cerveja, depois com o decorrer dos dias o ritmo ajustou-se a agora terminavam os três ao mesmo tempo. Manuel nunca olhava para o pôr do sol, apenas para o casal, e o casal apenas olhava para o pôr do sol e um para o outro, nunca para Manuel.

Sempre que algum amigo visitava Manuel ele despachava-o antes do pôr do sol chegar ou então, o que ele preferia, marcava as suas visitas para depois dessa hora, assim não tinha que ser malcriado e correr com eles durante os minutos da sua cerveja na varanda. Ao olhar para aquele casal, Manuel pensava no que teria levado duas pessoas de gerações diferentes a encontrarem aquela harmonia. Como é que se conseguiria?

Com o tempo Manuel foi conseguindo perceber os olhares trocados pelo casal e acreditava ter decifrado cada expressão e cada sentimento exposto nesses olhares. Percebeu que a mulher amava o homem de uma forma mais intensa do que alguma das suas namoradas alguma vez o amou. Sentiu que eram livres, não existia nenhuma obrigação que qualquer um deles tivesse de cumprir perante o outro, estavam ali um para o outro, mas também estavam por si. O homem e a mulher sentiam-se gratos por se terem um ao outro e por poderem estar assim com alguém. Todas as tardes eram pois uma celebração daquele encontro feliz de duas almas.

Manuel, encarava a vida com mais alegria, todos os seus movimentos e pensamentos estavam saciados pela serenidade que bebia todas as tardes. Uma vez durante um almoço, num restaurante de comida italiana, não conseguiu deixar de olhar durante vários minutos  para uma rapariga que almoçava sozinha duas mesas em frente dele. Houve algo no olhar dela que lhe fez lembrar o olhar da sua vizinha da frente. Levantou-se e foi ter com ela, convidou-a para visitar a sua casa naquela tarde, um pouco antes do pôr do sol, escreveu a sua morada num guardanapo e deu-lhe, ela aceitou sem dizer palavra.

Nessa tarde, enquanto esperava pela hora certa verificou que tinha pelo menos duas cervejas. A hora chegou mas a rapariga não, pegou numa cerveja, e com algum desapontamento a pesar-lhe nos ombros dirigiu-se para a sua cadeira na varanda. Pouco depois apareceu o homem, um minuto depois a mulher, os dois sentaram-se e começaram a beber as suas cervejas, Manuel fez o mesmo. Quando o casal olhou pela primeira vez, naquela tarde, um para outro. Manuel compreendeu algo que imediatamente dissipou o desapontamento do seu encontro falhado. Provavelmente a rapariga do restaurante tem algo que não pode perder naquela hora, se fosse ela a convidá-lo para casa dela, àquela hora, ele teria faltado.

É um fardo que não gosto muito de carregar, mas acontece. Às vezes fico por minha conta e sou a minha companhia. Evito sempre que possível porque, normalmente, é frustrante passar muitas horas seguidas com a mesma pessoa.

Por mais interessante que a pessoa seja, até pode ser hilariante (o que não é o caso), pode ser inteligente, o que nem sempre é bom sinal, e pode até ser bom conversador, mas isso só implica uma disponibilidade enorme para ser ouvinte, o que nem sempre apetece. Por isso quando ouço o velho ditado do “mais vale só que mal acompanhado”, pergunto-me se o seu autor não seria demasiado narcisista.

Tudo bem que pode ajudar a pensar nalgumas coisas que acompanhados dificilmente pensaríamos, mas nem sempre isso é positivo. Também pode ajudar a relativizar algumas preocupações, mas por vezes ajuda a emaranhar o nó. Pode ser saudável se nos decidirmos a ler, ouvir música, ver filmes, escrever, passar a ferro e ir à casa de banho, mas para quase tudo o resto o mais saudável é ter companhia. Mesmo para pensar.

Uma coisa boa deste estado, por minha conta, é que me permito desbravar caminhos que por vezes são afastados na presença de outros. Uma coisa terrível é que quando percorro esses caminhos sinto sempre que me falta companhia.

Depois do álbum de Perfume Genius, descobri agora outra pérola discográfica, o novo disco dos School of Seven Bells, de seu nome “Ghostory”, e que se encontra disponível para audição, na íntegra, neste link (http://stereogum.com/963312/album-of-the-week-school-of-seven-bells-ghostory/top-stories/). Para o apresentar já existe um videoclip, também ele muito bom, que não podia escapar no fecho deste post.