O patriarcado como construção social

Posted: Março 26, 2012 in Cérebro - Pensamentos, Olhos - Videoclips, Ouvidos - Memórias

Voltando ao pensamento de Cornelius Castoriadis, eis uma elaboração dele a propósito da predominância masculina na nossa sociedade:

As inovações deste texto (refere-se a “Algumas consequências psicológicas da diferença anatómica entre sexos” de Freud) consistem, primeiramente, no reconhecimento do papel da mulher como primeiro objecto do amor libidinal para as crianças de ambos os sexos e, em segundo lugar, na posição central que é dada à descoberta que elas fazem em como a rapariguinha está “castrada” (sic), do consequente desprezo de que esta pode ser alvo por parte do rapazinho e de si mesma e do irradicável desejo do pénis que a dominará de ora em diante. procurar fazer destes factos psicológicos o fundamento da instituição patriarcal é contudo, ainda neste caso, uma petição de principio. Que aos olhos das crianças o pénis ou o falo (e não, por exemplo, o ventre de uma mulher grávida) se encontre revestido deste valor fundamental, isso já pressupõe a valorização ambiental (social) da masculinidade. O papel essencial do pai na maturação psico-social da criança é ainda menos susceptível de fornecer uma explicação para o patriarcado. A característica decisiva deste é a concentração, numa só pessoa, de quatro papeis: genitor biológico, objecto de desejo da mãe, ao romper o estado fusional que tende a instaurar-se entre esta e a criança (independentemente do seu sexo), modelo de identificação para os rapazes e de objecto sexual valorizado para as raparigas e, finalmente e sobretudo, instância de poder e representante da lei. Pode argumentar-se que esta concentração é “económica” (mas não deveríamos desdenhar os seus custos), mas não se pode dizer que seja inevitável. Em todo o caso, não pode existir nenhuma dúvida sobre a inclinação patriarcal do próprio Freud, expressa no seu juízo de que as mulheres seriam muito menos capazes de sublimar que os homens, no mito do Totem e Tabu, no qual as mães e as irmãs não desempenham qualquer papel ou ainda na maneira como considera a androcracia divina ao pensá-la, sobretudo no monoteísmo como algo de evidente.

Algo construído e orientado por Freud, levou a que a manutenção do status quo patriarcal seja pouco questionada, ora o que Castoriadis propõe é, exactamente, que se coloquem algumas questões sobre essa prevalência masculina na organização da sociedade, algo que, fora da esfera dos estudo feministas, tem sido descurado, inclusive pela própria ciência. Como programa para um futuro onde o equilíbrio (não a igualdade, porque os sexos não são iguais) entre sexos ocorra, é necessário começar por colocar em causa algumas teoria, que mesmo elaboradas “com a melhor boa vontade”, atrasam o caminho em direcção a esse equilíbrio.

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