Minto menos agora

Posted: Março 21, 2012 in Cérebro - Pensamentos, Olhos - Videoclips, Ouvidos - Memórias

Estou a mentir menos. Consegui viver grande parte da minha vida com o armário cheio de esqueletos criados por mim, e pela minha dificuldade em ser mais “verdadeiro”, a desculpa é que tinha medo da verdade. Desde 2005 (sim. sei a data!), que  a atitude perante a vida, no que a isso diz respeito, mudou. Os esqueletos foram expostos, e mesmo não desaparecendo (alguns irão permanecer para sempre), passei a ter com eles uma relação mais feliz, menos assustadora. Não foi o assumir de uma homossexualidade (podia ser, mas não é o caso), não foi o contacto directo com a morte (ainda não passei, eu próprio, por aí), nem sequer foi uma mudança radical na vida quotidiana. Mas foi experiência importante o suficiente para me deixar descobrir que já não necessitava de mentir ou ocultar. Claro que acredito num dos slogans do Dr. House – “Everybody lies”, e cálculo que até a Madre Teresa tenha mentido. Mas a minha relação com a mentira mudou, deixou de ser tão relevante, embora admita que já menti depois de 2005, e de certeza que vou mentir no futuro.

Depois veio a paternidade o que só reforçou esse novo estado de espírito. E com ele a descoberta de que é muito mais fácil viver sem o peso de uma mentira. Poder ir à luta sem receios de que as falhas que ocultava pudessem ser desmascaradas. Não significa que me estou nas tintas para elas, apenas sinto que já estão expostas que já as assumo e por isso já me fazem muito menos mossa. Eu que até me considero um bom rapaz (a sério que considero!), fui capaz de mentir, enganar, roubar (em lojas, se é que isso faz diferença), experimentar coisas que para além de ilegais eram arriscadas, experimentar outras que não sendo ilegais não deixaram de ser enormes riscos, e viver como se tudo isso fizesse parte de um percurso normal.

Agora, tenho um bom depósito de explicações mais ou menos complicadas para fornecer à minha filha sempre que ela as pedir e eu sentir que ela as deve receber. Mas tenho também uma consciência (é verdade, quem diria!), de que sou melhor do que já fui. Não quero aqui deixar uma imagem de renascido, porque seria mentira, basicamente sou a mesma pessoa que sempre fui, continuo a gostar de coisas que gostava em 1980, 1990 ou 2000, continua a saber bem fazer determinados programas, e ainda mantenho o enorme gosto de estar com os meus amigos (que conseguiram aguentar o bom rapaz durante muitos anos, mesmo reconhecendo-lhe as idiossincrasias). Mas algo mudou e eu sei que essa mudança me fez bem.

Não faço apologia da verdade doa a quem doer, porque essa história da dor é sempre mais fácil de infligir aos outros do que nós acreditamos, por isso tenho algumas cautelas. Até porque também acredito que a frontalidade é muitas vezes uma boa desculpa para ocultar traços sádicos. Aí, nesse campo ainda mantenho algumas dificuldades, reconheço que se deve ser honesto, mas retiro alguma credibilidade à frontalidade nua e crua. É provavelmente um mecanismo de defesa (protecção mesmo) que ainda retenho. Talvez com o tempo possa desenvolver outro tipo de atitude, mas para já continuo a ter pouca afeição por pessoas que usam como lema pessoal a frase – “Eu sou muito frontal”. Principalmente aqueles que despejam essa informação sem que ninguém nem nada no contexto a exigisse. A imagem que tenho é que são pessoas que ao dizer isso estão a puxar a culatra atrás, e ficam logo prontas a disparar.

Pronto, minto menos. É um facto. E não tenho mais nada (agora), para escrever sobre isso. Acabo com a revisitação dos anos 60, que há quem defenda terem sido anos de inocência e de defesa da verdade. Os The Byrds com “Your Lies” e muitos rapazes e raparigas a dançar, indiferentes a tudo isto.

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