A queda

Posted: Março 19, 2012 in Olhos - Videoclips, Ouvidos - Actual, Pele - Lazer

Vulgarizado pelos acidentes noticiosos, a sua queda passou despercebida. Esquecida e ignorada foi como se apenas ele a tivesse vivido. Nunca as dores foram tantas, o seu corpo pedia-lhe os maiores cuidados, numa luta desgastante todo ele corria para acalmar quantas dores conseguisse, nunca sendo capaz de cuidar de todas. Desistiu e deixou-se ficar quieto, esperando que o tempo aliviasse e resolvesse todas as fracturas.

Deitado olhava para as coisas como se estas fossem capazes de o entender e de perceber o seu sofrimento, escondido no seu silêncio. Um copo adivinhava-lhe a tristeza, uma lâmpada apontava-lhe a angústia e todos os objectos lhe reconheciam o cansaço. Em vez de os odiar pela capacidade para o desmascarar, ele tinha-lhes afecto. Funcionavam como companheiros desta viagem, sempre dispostos a partilhar mais uma paisagem, mesmo sabendo que essa paisagem era sempre o seu rosto. O relógio, o mais irrequieto de todos os objectos, ia a vinha enquanto o seu olhar se demorava na maçaneta da porta. Queria que ela se mexesse, que os sinais de vida do exterior se materializassem naquela maçaneta. O seu olhar raramente se desviou dela até que exausto, deixou de acreditar na possibilidade dela alguma vez se mover e fechou os olhos. Mesmo assim, de olhos fechados, sabia que os objectos da sala o olhavam. Inclinou a cabeça para trás e através da janela via a montanha ao fundo, coberta de neve e as nuvens que passavam sobre ela.

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